Por Aluísio Azevedo (1882)
O comendador fora casado duas vezes. A primeira mulher, justamente a que ele mais estimara, ou, talvez, a única que ele amou, dera-lhe ainda um outro filho, que nasceu pouco depois de Olímpia; a segunda mimoseou-o com duas raparigas gêmeas. Mas tudo isso morreu; tudo isso desertou; aquele aos treze anos e estas duas antes dos cinco. Só Olímpia resistiu e se conservou fiel ao infeliz patriarca. Não admira, pois, que ele a amasse com tanto extremo. E esse belo amor de pai, fazia com que a gente não desse grande atenção a algum ridiculozinho, que porventura turvasse o tipo simpático do comendador.
Quanto lhe não seria penoso por conseguinte habitar a Avenida Estrela, para que o pobre velho ainda se não tivesse habituado a semelhante idéia e ainda se não mostrasse de todo resignado. Definitivamente era enorme o sacrifício! A filha nunca lhe tinha exigido até ali tão grande provação.
E o comendador, pensando assim, deixava-se entristecer. O Papá Falconnet, entretanto, mal o pilhou desacompanhado da filha, correu ao seu encontro e principiou a falar-lhe minuciosamente da casa:
— V. Exa. aqui ficará melhor do que em parte alguma!... afirmava este convicto. Não me fica bem dizê-lo, mas juro-lhe que escolho do melhor para servir meus hóspedes!
E, desfazendo-se em cortesias, obrigava o comendador a acompanhá-lo.
— Tenha a bondade! dizia ele; tenha a bondade de passar um instante à nossa sala de bilhar. É o que se vê! Asseio, simplicidade e cômodo completo! Agora temos ali a sala de jantar! Faça o favor de ir entrando... Aqui janta-se defronte das árvores! É como se fosse em plena floresta!... Ouvem-se da mesa cantar os passarinhos. Veja, sr. comendador, tenha um pouco mais de paciência e olhe V.
Exa. para isto: é a nossa cozinha... Pouco luxo, mas limpeza por toda a parte. Agora vou mostrar-lhe os banheiros!...
— Não! dispense-me, respondeu o comendador com delicadeza. Estou muito fatigado e preciso de recolher-me.
E, antes que Papá Falconnet o detivesse, já ele se tinha afastado para ir
visitar a filha.
Os hóspedes, que foram entrando pouco a pouco à proporção que anoitecia, olhavam com certa surpresa para o comendador e faziam entre si perguntas a seu respeito. Olímpia mostrou-se no dia seguinte, e dispensou que lhe servissem o almoço no quarto.
Era um domingo, a mesa encheu-se de hóspedes, que só nesse dia comiam no hotel. O comendador assentou-se contrariado ao pé da filha, depois de cumprimentar os outros comensais. Gregório estava entre estes e não tirava os olhos de Olímpia.
Esta impunha, sem saber, uma inusitada cerimônia. Fez-se constrangimento; ninguém se queria servir sem passar o prato ao vizinho. A figura nutrida do comendador destacava-se, amplamente, dentre dois rapazes magrinhos que pareciam irmãos. O Falconnet ocupava a cabeceira e falava, em tom reservado, sobre a excelência do almoço.
— Não me fica bem dizê-lo, repetia ele, mas incontestavelmente estes camarões estão soberbos!
E voltando-se para Olímpia:
— V. Exa. não quer repetir, minha senhora?
Olímpia respondeu que não com o garfo.
Mme. Falconnet distribuía pratos aos seus hóspedes. A conversa em breve começou a estalar de vários pontos da mesa, a princípio apenas murmurada, depois em tom mais alto, e afinal livremente solta. Os assuntos chocavam-se no ar. De um lado discutia-se a respeito da guerra franco-prussiana, que ainda nessa ocasião tinha cheiro de novidade; falava-se de outro a respeito da última estação da febre amarela; os dois rapazinhos parecidos disputavam uma questão sobre um tal Mateus, um deles afirmava que o Mateus era filho da Bahia, e o outro sustentava que era fluminense. Às vezes falavam pela frente do comendador e estendiam-se sobre o prato, quase a tocar nariz contra nariz; às vezes derreavam a cadeira para trás e gesticulavam agitando os braços pelas costas do seu vizinho comum do centro. O comendador, entalado entre os dois, ora se chegava para a frente, ora se empinava para trás, sem querer interromper com seu volumoso corpo as vistas dos contendores.
Dava-se com o comendador nessa ocasião um fenômeno muito vulgar. Ele ali, entre aquela gente singela e pouco escrupulosa na prática das etiquetas, se sentia, mais do que nunca, disposto a conservar a sua austera atitude de homem fino; o contraste estabelecido entre ele e os companheiros da mesa instigava-o a sustentar com muito empenho um grande ar diplomático que nem sempre era o seu. Em outros lugares, onde aliás qualquer sem-cerimônia não seria perdoada, o bom comendador nunca se mostrava tão fiel aos rigores da cortesia e parecia até disposto a abrir mão contra alguns deles.
Todavia Gregório não tirava os olhos de Olímpia. Sua imaginação cabriolava doida em torno da formosa criatura, procurando puxar-lhe pelos olhos, pelo riso ou pelo perfume dos cabelos, o fio de algum segredo, o segredo de alguma paixão, que a tivesse posto assim tão preocupada e tão triste, e lhe tivesse dado aquele ar melancólico de rola sem companheiro.
Depois do almoço apareceu o Dr. Roberto. O comendador carregou com este para o quarto e desabafou então com ele as suas penas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.