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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Até então, nunca recebera de seu pai esse carinhoso tratamento. O Vasconcelos nem ao menos o tratara por tu; nunca lhe dera a beijar a mão ou a face, nunca lhe abrira, enfim o coração, quando este se achava ainda brando e maleável, para depor aí as sementes de ternura, que desabrochariam mais tarde produzindo os bons sedimentos do homem..

Como exigir de Amâncio que tivesse agora as virtudes que, em estação propícia, lhe não plantaram na alma? Como exigir-lhe dedicação, heroísmo, coragem, energia, entusiasmo e honra, se de nenhuma dessas coisas lhe inocularam em tempo o germe necessário?

Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde, e traiçoeiro. Na ramificação de seu caráter a sensualidade era o galho único desenvolvido e enfolhado, porque de todos só esse podia crescer e medrar sem auxílios exteriores.

Vasconcelos, por conseguinte, chegou tarde; encontrou já enrijado e duro o coração do filho.

E, no entanto, toda a sus carta, fazia o que, por inépcia nunca fizera de perto, — dirigia-se amorosamente ao rapaz. Contava-lhe novidades da província, comentava certos fatos escandalosos, falava sem reservas de umas tantas coisas, das quais até aí nunca se permitira tratar na presença de Amâncio.

O tópico seguinte levou o provinciano ao cúmulo da admiração:

“Não digo que te faças um santo, mas também não te afogues no torvelinho dos prazeres. Goza, meu filho, por isso que és moço, goza, porém, com prudência e com juízo; diverte-te, mas evitando sempre tudo aquilo que te possa prejudicar. Lembra-te de que saúde só tens uma, e moléstias há muitas. O mundo não se acaba! Adeus. Nunca deixes de me escrever e, quando te vires aí em qualquer apuro, fala-me com franqueza.”

Tudo isso vinha tarde. Muita coisa, à semelhança do leite materno, só nos aproveitam até certa época. Depois, em vez de fazerem bem, fazem mal.

As palavras de Vasconcelos que, aplicadas no tempo competente, dariam ótimos resultados em benefício do filho, eram agora para este um simples pretexto de galhofa. Amâncio sorriu da aparente transformação de seu pai.

— Ora para que havia de dar o velho!...

Não obstante, um vago sentimento, ao mesmo tempo amargo e agradável, apoderou-se dele. Desfrutava um certo gosto em merecer aquela intimidade paterna; mas, por outro lado, doía-lhe a consciência por não ter sido melhor filho; como se o pobre rapaz de qualquer forma contribuíra para semelhante falta.

E, então, acudiu-lhe à memória uma circunstância de que jamais se havia lembrado, — a despedida do pai. Vasconcelos estava bastante comovido nesse momento e abraçava-o chorando. Amâncio nunca lhe tinha visto o rosto com aquela simpática expressão de sofrimento; mas, bem pouco se impressionou na ocasião; os olhos conservavam-se-lhe enxutos e o coração quase alegre com a idéia da liberdade que ia principiar

Só agora, depois da carta, depois que soube que era amado pelo velho, uma grande tristeza invadiu-o todo, e as lágrimas rebentaram-lhe com explosão.

Assim sucede sempre aos filhos educados à portuguesa, cujos pais como que sentem vexame de lhes patentear o seu amor.

Pobres pais! Quantas vezes não estarão morrendo por afagar o filho e, todavia, em vez de lhe darem um sorriso carinhoso, um beijo, uma palavra de doçura, fingem-se indiferentes e afastam-se para que o pequeno não lhes perceba a comoção.

Néscios! Julgam que com isso estabelecem uma corrente de respeito entre eles e os filhos; julgam que isso é indispensável para o bom êxito da educação; quando toda essa anomalia só pode servir para lhes roubar a confiança e a estima dos entes predestinados a dedicar-lhes todas as primícias de sua ternura.

Os pais dessa espécie levam a tal exagero a sua convencional rispidez, que, se acham graça em alguma coisa feita pelo filho, sufocam o riso, medrosos de que qualquer expansão acarrete uma quebra ao respeito filial.

Foi tudo isso, ao justo, que se deu com Vasconcelos a respeito de Amâncio. Amou-o, mas com disfarce; fingiu-se diretor inflexível, quando era simplesmente um pai como qualquer outro. Muita vez chorou de ternura, mas sempre às escondidas; muita vez sentiu o coração saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de cair no ridículo.

E não se lembrava, o imprudente, de que o amor de pai é bem contrário ao amor de filho; não se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e que este precisa ser criado; que aquele é um princípio e que este é uma conseqüência; que um vem de dentro para fora e que o outro vem de fora para dentro. Não se lembrava, o infeliz, de que o primeiro existirá fatalmente, por uma lei indefectível da natureza; ao passo que o segundo só aparecerá se lhe derem elementos da vida. Foi desses elementos que Amâncio nunca dispôs para poder amar o pai

* * *

O fato é que , depois da leitura da carta, o estudante sentiu, pela primeira vez, algum desejo de dar notícias suas a Vasconcelos; até aí só o fazia por honra da firma.

(continua...)

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