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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Seixas se distraíra a ouvi-la. Por tal modo embebeu-se ele no enlevo da gentil garrulice, que chegou a esquecer por momentos a triste posição em que o colocara a fatalidade junto dessa mulher. 

Nas folgas que o apetite deixava à reflexão, D. Firmina admirava-se do desembaraço que mostrava a noive da véspera, na qual melhor diria um casto enleio. 

Mas já habituada à inversão que têm sofrido nossos costumes com a invasão das modas estrangeiras, assentou a viúva que o último chique de Paris devia ser esse de trocarem os noivos de papel, ficando ao fraque o recato feminino, enquanto a saia alardeava o desplante do leão. 

- Efeitos da emancipação das mulheres! pensava consigo. 

- Quer que lhe sirva desta salada, ou daquela empada de caça? Perguntou Aurélia notando que Seixas estava parado. 

- Nada mais, obrigado. 

Seixas tinha comido um bife com um naco de pão; e bebera meio cálice do vinho que lhe ficava mais próximo, sem olha o rótulo. 

- Não almoçou! tornou a moça. 

- A felicidade tira o apetite, observou Fernando a sorrir. 

- Nesse caso eu devia jejuar, retorquiu Aurélia gracejando. É que em mim produz o efeito contrário; estava com uma fome devoradora. 

- Nem por isso tem comido muito, acudiu D. Firmina. 

- Prove desta lagosta. Está deliciosa, insistiu Aurélia. 

- Ordena? perguntou Fernando prazenteiro, mas com uma inflexão particular na voz. Aurélia trinou uma risada. 

- Não sabia que as mulheres tinham direito de dar ordens aos maridos. Em todo o caso eu não usaria do meu poder para coisas tão insignificantes. 

- Mostra que é generosa. 

- As aparências enganam. 

O torneio deste diálogo não desdizia do tom de nascente familiaridade, próprio de dois noivos felizes; mas havia entonações e relances d'olhos, que os estranhos não percebiam, e que eles sentiam pungir como alfinetes escondidos entre os rofos de cetim. 

Da sala de jantar Fernando, acabado o almoço, passou à saleta de conversa, onde com pouca demora o acompanhou Aurélia. D. Firmina para não perturbar o mavioso a sós dos noivos, saiu a pretexto de encomendas. 

Seixas tinha aberto maquinalmente um dos jornais do dia, que estavam em uma bandeja de charão com pés de bronze dourado, junto ao sofá. Quando Aurélia entrou, ele ofereceu-lhe a folha que tinha em mãos e as outras, à escolha. 

- Agradeço, disse Aurélia sentando-se no sofá. 

O criado se apresentava a Seixas com um porta-charutos de araribá-rosa tauxiado de prata e guarnecido de legítimos havanas, uma lâmpada também de prata, em cujo bico cintilava a flama azulada do espírito de vinho. 

- Obrigado, tenho os meus, disse Fernando recusando com um gesto os charutos oferecidos e tirando a carteira do bolso. 

- E estes de quem são? perguntou vivamente Aurélia, designando os havanas apresentados pelo criado. 

Seixas fez um movimento para responder; lembrando-se que não estavam sós, retraiu-se: 

- Referia-me aos que trouxe comigo, disse frisando as últimas palavras.

- São melhores talvez. 

- Ao contrário; mas estou habituado com eles. Não lhe incomoda a fumaça? 

- Faria prova de mau gosto a senhora que atualmente mostrasse repugnância dessa ordem; além de que preciso conformar-me aos hábitos de meu marido. 

- Por este motivo, não. Como seu marido não tenho hábitos, e somente deveres. 

Aurélia cortou o fio a este diálogo, perguntando com indiferença:

- Que trazem de novo os jornais? 

- Ainda não os li. Que mais lhe interessa? Naturalmente a parte noticiosa, o folhetim... 

Ao mesmo tempo abria Seixas as folhas uma após a outra, e percorrendo-as com os olhos, e percorrendo-as com os olhos, lia em voz alta para Aurélia o que encontrava de mais interessante. A moça fingia ouvi-lo; mas seu espírito repassava interiormente os últimos acontecimentos de sua vida, e interrogava as incertezas do futuro, que ela mesma em parte se havia traçado. 

Todavia a presença do criado fez-lhe reparar que Seixas ainda tinha por acender o charuto. 

- Não fuma? Perguntou ao marido. 

(continua...)

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