Por Camilo Castelo Branco (1862)
A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas, que li há pouco! Estou vendo a casinha que tu descrevias defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo às margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a Lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia enquanto a alma se está recordando. Noutra carta, me falavas em triunfos e glórias e imortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou adiante dela, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espírito queria eu que fosse meu. Era criança há três anos, Simão, e já entendia os teus anelos de glória, e imaginava-os realizados como obra minha, se tu me dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o estimulo do meu amor.
Ó Simão, de que céu tão lindo caímos! A hora que te escrevo, tu estás para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.
Que importa morrer, se não podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de há três anos? Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos benefícios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim.
E que farias tu da vida sem a tua companheira de martírio? Onde tu irás aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem o esquecimento da imagem desta dócil mulher, que seguiu cegamente a estrela da tua malfadada sorte?!
Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma vez visses passar rapidamente a minha sombra por diante dos teus olhos enxutos? Sofre, sofre ao coração da tua amiga estas derradeiras perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta leres.
Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora... a última dos meus dezoito anos!
Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre de uma agonia longa. Todas as minhas angústias lhe ofereço em desconto das tuas culpas. Se algumas impaciências a justiça divina me condena, oferece tu a Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu seja perdoada.
Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!"
Ergueu-se o degredado, olhou em redor de si e fitou com espasmo Mariana, que levantava a cabeça ao menor movimento dele.
— Que tem, senhor Simão? — disse ela, erguendo-se.
— Estava aqui, Mariana?... Não se vai deitar?!
— Não vou; o comandante deu-me licença de ficar aqui.
— Mas há de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é necessário o seu sacrifício.
— Se o não incomodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.
— Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convés?
— Quer ir ao convés, senhor Botelho? — disse o comandante, lançando-se do beliche.
— Queria, senhor comandante. — Iremos juntos.
Simão ajuntou a carta de Teresa ao maço das suas, e saiu cambaleando. No convés sentou-se num monte de cordame, e contemplou o mirante do Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que atualmente vai a Rua da Restauração.
O capitão passeava da proa à ré, mas com o ouvido fito aos movimentos do degredado. Receara ele o propósito do suicídio, porque Mariana lhe incutira semelhante suspeita.
Queria o marítimo falar-lhe palavras consoladoras, mas pensava consigo: — "O que há de dizer-se a um homem que sofre assim?" — E parava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o espírito daquele mirante.
— Eu não me suicido! — exclamou abruptamente Simão Botelho. — Se a sua generosidade, senhor capitão. se interessa em que eu viva, pode dormir descansado a sua noite, que eu não me suicido.
— Mas mereço-lhe eu a condescendência de descer comigo à câmara? — Irei; mas eu, lá, sofro mais, senhor.
Não replicou o comandante, e continuou a passear no convés apesar das rajadas de vento.
Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distância de Simão. O comandante viu-a, falou-lhe, e retirou-se.
As três horas da manhã, Simão Botelho segurou entre as mãos a testa, que se lhe abria abrasada pela febre. Não pôde ter-se sentado, e deixou cair o meio corpo. A cabeça, ao declinar, pousou no seio de Mariana.
— O Anjo da compaixão sempre comigo! — murmurou ele, — Teresa foi muito desgraçada...
— Quer descer ao camarote? — disse ela. — Não poderei... Ampare-me, minha irmã.
Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o mirante. Desceu a íngreme escada, apegando-se às cordas. Lançou-se sobre o colchão, e pediu água. que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o estarcimento, e as ânsias, com intervalo de delírio.
De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando o condenado, disse que era febre maligna a doença, e bem podia ser que ele achasse a sepultura no caminho da Índia.
Mariana ouviu o prognóstico, e não chorou.
As onze horas saiu barra fora a nau. As ânsias da doença acresceram as do enjôo. A pedido do comandante, Simão bebia remédios, que bolsava logo, revoltos pelas contrações do vômito.
Ao segundo dia de viagem, Mariana disse a Simão:
— Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer àquelas cartas que vão na caixa?
Pasmosa serenidade a desta pergunta!
— Se eu morrer no mar — disse ele — Mariana, atire ao mar todos os meus papéis, todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro também.
Passada uma ânsia, que lhe embargava a voz, Simão continuou:
— Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana?
— Morrerei, senhor Simão.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.