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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Era o doutor P. G. que pinta os cabelos.

Muitos outros casos surpreendentes se têm passado que agora não nos ocorrem. Careta, Rio, 15-11-1919.

CONCURSO PARA A COZINHA

Na Escola Rivadávia Correia realizou-se na semana passada, sendo examinadas as cinco candidatas da primeira turma e muitas outras, um concurso para contramestra de cozinha.

Aprovo o alvitre, tanto mais que verifico que são muitas as candidatas. Na notícia que li, há cerca de dez nomes.

Com prazer verifiquei que a vocação da mulher para a cozinha ainda não foi morta pela de auxiliar de escrita da estrada de ferro.

O número das que se inclinam para o forno ainda não é menor do que aquelas que se sentem atraídas pela máquina de escrever do doutor Assis Ribeiro.

Prefiro as últimas, às primeiras. Não há como um bom pitéu bem temperado. Um tutu de feijão com um bom molho de tomates, cebolas e vinagre, seguido de uma carne seca picadinha, vale mais do que qualquer ofício limpo, redigidinho naquela pobretona literatura oficial, sem calor nem gosto.

Não há quem possa negar isto; e muita gente tem escrito sobre as excelências da cozinha. Brillat-Savarin escreveu um tratado que ainda é lido, mais do que muitas obras solenes e científicas que ficaram às traças.

O destino das nações, diz ele, depende da maneira que elas se nutrem; e só os homens de espírito sabem comer.

Pois se é assim, agora que todos nós, inclusive o chefe do executivo, pretendemos criar de novo uma nação forte-cheia de inteligências, não há nada mais precioso que os poderes públicos se preocupem com a cozinha, formando mestras dela sábias e proficientes.

Semelhante iniciativa deve provir da firme disposição em que está o público brasileiro de fazer disto aqui um novo Estado Unidos da América do Norte.

Já começamos pela cozinha e havemos de chegar à sala de visitas, graças a

Deus, thanks giving day!

Tomo porém, licença de notar que não podemos ficar no feijão, na carne seca...

Esta está pela hora da morte!

Conto uma história:

Certo dia fui jantar com um amigo rico e ele me deu este caro menu:

Sopa de legumes;

Carne seca frita e pirão;

Bacalhoada à portuguesa, com quiabos e maxixes.

Antes de nada, ele me disse:

– Não repares! Só estes quiabos custaram-me um vintém cada um.

Comi muito e, lembrando-me do fato de agora, da mestra de cozinha, tenho medo que, aperfeiçoando-se muito a cozinha, nós não podemos mais comer... Enfim! Careta, Rio, 22-11-1919.

NOVIDADES

Quando queremos ler um jornal com cuidado, fazemos descobertas portentosas. Não há quem as não faça, por menos sagaz que seja. Veja esta só que vem no Correio da Manhã destes últimos dias:

“J.Ferrer & Cia, negociantes, estabelecidos nesta capital, propuseram no juizo da

6ª Vara Cível, uma ação contra Álvaro de Tal e sua mulher, para o fim de condená-los a pagar a quantia de 9:607$950.” Até aí não há nenhuma novidade: mas leiam o que se segue:

“Alegam os autores que forneceram à ré, quando solteira, dinheiro, materiais e mão-de-obra para a construção do prédio à rua etc. Dizem os autores que, casando a ré, sem lhes haver pago o marido, morando na casa e casado em comunhão de bens, também era responsável pela dívida, que se tornou comum.”

O resto não nos interessa; mas pelo que aí fica, podemos fazer algumas considerações boas.

Até bem pouco tempo, o interesse principal do casamento, a sua virtude primordial era arranjar uma noiva rica que nos pagasse as dívidas.

Todos os rapazes tinham essa ambição; e, desde que conseguissem uma futura cara-metade, nessas condições tinham o crédito decuplicado.

Tenho um conhecido que se casou numa igreja de arrabalde afastado, não fez convites, foi quase à capucha, mas, ao entrar na igreja, ficou admirado com a numerosa assistência: eram os credores que a enchiam.

Parecia que era regra geral que os homens procurassem casar para fazer a operação de crédito, muito simples de saldar as suas contas.

Hoje, porém, à vista do caso que o citado vespertino alude, parece que não. As mulheres também procuram maridos, para liquidar as suas dívidas convenientemente.

Estamos no tempo do feminismo rubro até ao tacape e nada há de admirar.

Não nos devemos assombrar com as suas novidades, nem mesmo com esta.

Tudo é possível.

Careta, Rio, 22-11-1919.

PODEM FAZER?

Não são só os escritores militares que fazem apologia da guerra, muitos civis de outras condições a fazem também. Recordo-me ainda que ultimamente um pregador brasileiro, muito respeitado pelos seus talentos e conhecimentos religiosos chegou, num rapto de eloquência, a asseverar que a guerra era divina.

(continua...)

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