Por Aluísio Azevedo (1884)
E experimentava arrepios de indignação quando, à tarde, num alvoroço postiço, reuniam-se à porta do Bragança grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando uma aristocracia que não tinham, fazendo uma existência fina e superior, que mal conheciam de tradição. Por debaixo daquelas roupas à inglesa, daquelas rendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia endinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portuguesão, meticuloso, ruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de vícios.
Os phaetons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e três tiros de cavalos, as corridas à marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa dos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que não tinha o cunho do hábito e o caráter de coisa adquirida insensivelmente com a educação, com o berço, tudo isso se lhe afigurava tacanho, ridículo, insuportável.
E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de negócio, nos costumes, nas toilettes, na linguagem, nas relações, nos amores, em tudo descobriu o mesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupação de mostrar uma grandeza que não havia.
Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confidência com o Guterres — cheira-me assim a mulata forra com pretensões a cocotte.
E o Borges, aquele paz vobis, aquele homem que não sabia quais eram os passos necessários para entrar na política, resolveu ao fundo do seu bom senso burguês que Petrópolis não passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa, que se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes um parelho, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.
E profetizou, o toleirão?. que, dentro de vinte anos Petrópolis deixaria de existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas do prazer e do vício como Mônaco ou Monte Cano, alimentadas pelo jogo, pagando o "barato" ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom tom.
Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam ao paladar simples do burguês, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras, vistas através do prisma fantástico de sua imaginação.
Para Filomena, Petrópolis continuava a ser o "tépido retiro das almas delicadas, a fina corte do espírito e da elegância". Uma espécie de ninho artístico, feito de ramos e folhas naturais, porém borrifado de leve com algumas gotas de ylang-ylang.
Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam de bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestigio do monarca, por exemplo, longe de lhe ser desafeiçoado, constituía um dos pontos que mais a interessavam. E, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente não ser mais completo, mais cavalheiresco, mas ao sabor da Idade média.
Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais moço e mais bonito, amando os combates encarniçados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo; supersticioso e malvado; indomável e forte defronte dos esquadrões inimigos, suplicante e humilde aos pés de uma dama fraca e delicada.
Não o desejava de casaca e chapéu alto, porém, de gorro emplumado e gibão de veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas. Preferia-o de longos cabe-los da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo, o nariz firme e audacioso, como o dos antigos heróis da Grécia.
A gorda figura do Imperador, com o seu abdômen saliente, as suas pernas finas, a testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um desgosto profundo. Não lhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial honestidade, aquela expressão moleirona de homem linfático e túrgido pela vida sedentária. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam no espirito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor às magnificências da coroa.
— Não é um rei! dizia ela consigo, cheia de indignação.
— Não é um rei, é um pai de família, um fazendeiro rico, um tipo comum!...
Mas para que se afligir com essas pequenas misérias do mundo, se ali estava a sua bela imaginação, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a realidade lhe grupava brutalmente em torno da existência?!
E, com o auxílio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido de ouro e azul. Petrópolis converteu-se defronte de seus olhos nos domínios de um belo infante apaixonado, que vivia a bater nas suas terras o javali bravio.
E Filomena, soltando as rédeas de sua indomável fantasia, transpunha-se aos tempos medievos e sonhava as clássicas manhãs de caça, em que os reis, cercados de uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste som de retorcidas trompas de metal.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.