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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Os dois rapazes meteram-se no vão de uma janela da sala de visitas, e Amâncio, com acentuações de quem detesta imoralidades, disse ao outro, sem transição:

— Coqueiro, estou aqui há pouco tempo, mas estimo tua família, como se fosse a minha própria, e, por conseguinte, entendo que é do meu dever me abrir contigo, sempre que nesta casa descobrir qualquer coisa que possa Ter conseqüências graves...

— Mas que há? Perguntou o outro a fitá-lo, com muito empenho. — Trata-se de Nini, disse o provinciano em voz soturna.

Coqueiro remexeu-se no canto da janela.

— Sabes, continuou aquele, — que a pobre menina sofre horrivelmente dos nervos, e creio até que tem qualquer desarranjo na cabeça...

— Sim, por quê?

— Ë uma enferma, que, e não tivermos muito cuidado com ela, pode vir a dar sérios desgostos a ti e tua família...Mas, desembucha, o que é que houve?...

— Ë que ela, naturalmente em conseqüência da moléstia, coitada, às vezes faz certas coisas que para mim ou qualquer outro rapaz de bons princípios não valem nada, mas que, se caírem nas mãos de um desalmado...sim! Tu sabes que hás homens para tudo neste mundo!...

E, Amâncio, inflamado pelos princípios morais que ele só cultivava teoricamente, parecia mais que ninguém preocupado com a pureza dos costumes.

— Mas, afinal, que fez ela? Perguntou o Coqueiro, impacientando-se.

— Ora, disse o colega , desgostosamente, — tem feito o diabo...Ainda ontem, quando me levantei da mesa , segui-me até à sala e...

— E...

— Principiou a fazer tolices. A pobrezinha estava como não calculas!...Tive que recorrer à violência para contê-la; o resultado foi aquele ataque!...

E, vendo o ar de espanto que fazia o Coqueiro:

— Digo-te isto, porque me parece que tenho obrigação de to dizer se, porém faço mal, desculpa!...

— Mal? Ao contrário! Decerto que ao contrário! Fico-te muito grato!

E abraçando-o:

— Acabas de provar que és um homem de bem! A tua ação é de um verdadeiro amigo: não imaginas o quanto eu a aprecio.

— Cumpri com o meu dever...observou o provinciano modestamente.

— Obrigado! Muito obrigado! Fico prevenido. De hoje em diante não acontecerá outra!

— E agora, compreendes por que não me convinha ficar embaixo, no gabinete?...concluiu Amâncio.

— Oh!...Isso, porém, não era motivo para que deixasses o teu gabinetezinho... Eu daria as providências necessárias!...

— Não, filho, nesta questões de família sou muito rigoroso. E agora, o que está feito, está feito! Vou para o segundo andar; é até mais fresco!... E, depois de algumas ligeiras considerações sobre o mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um enérgico aperto de mão e desceram juntos à chácara, onde, debaixo das latadas de maracujá, os esperavam as senhoras, palestrando em familiar camaradagem.

* * *

Dias depois, quando Amâncio já estava transferido para o n.° 6 do segundo andar, chegaram-lhe às mãos duas cartas; uma de sua mãe, outra de seu pai.

Era a primeira vez que o velho Vasconcelos se dirigia ao filho em carta especial.

Abriu logo a de Ângela, sofregamente, e a imagem da santa, que as últimas agitações da vida do rapaz haviam nublado por instantes, como nuvens que escondem uma estrela guiadora, mal começou a leitura, ressurgiu inteira e lúcida à memória dele.

A boa mãe queixava-se de que o filho, ultimamente, já lhe não escrevia com a mesma assiduidade e com a mesma expansão: “Que significava semelhante mudança? Donde vinha aquela reserva? Por que aqueles bilhetes tão apressados, quase telegráficos?...”perguntava ela com a sua letra redonda e um pouco trêmula. “Por que não me escreves mais amiúde e mais extensamente?” insistia a carta, “por que, meu querido filho, não me contas toda a tua vida; não me dizes como passas, e em que te ocupas? Desejo saber se o Campos continua a ser teu amigo, se na casa dele continuas tratado como dantes. Quero que me relates tudo, que te diga respeito, meu Amâncio. Se soubesses a falta que tu me fazes, os cuidados que me dá a tua ausência, com certeza serias melhor para tua mãe.”

E, sempre a mesma, sempre extremosa, sempre com o filho na idéia, enviava-lhe conselhos, recomendava-lhe certas precauçõezinhas; as medidas que devia tomar contra tais e tais perigos; o modo pelo qual devia proceder em tais e tais perigos; o modo pelo qual devia proceder em tais e tais situações.

Amâncio releu várias vezes o que lhe dizia Ângela, e respirou largamente, como quem sai de um quarto apertado para um grande ar livre. Mas, se a carta materna o impressionou, a outra o surpreendeu, porque, de tão afável e condescendente, não parecia derivar daquele terrível Vasconcelos, que até em sonhos o aterrava, e sim das mãos amigas de um velho camarada dos bons tempos da infância.

Estranhou-o logo, desde as primeiras palavras.

“Meu filho”.

(continua...)

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