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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- O senhor já está pronto? Eu vim preparar o toucador, mas achei a porta fechada.

- Nada faltou, respondeu Seixas. 

- O senhor ordena que lhe traga os jornais a seu gabinete, para os ler logo ao acordar, ou quer que fiquem na saleta? 

- Onde ficavam até agora? 

- Na saleta... 

- É melhor assim. 

- É como o senhor mandar. Foi a ordem que recebi. 

O criado lançava um olhar pelo aposento, muito admirado da ordem que se encontrava todos os objetos, inclusive os adereços do lavatório. 

- O cocheiro pergunta se o senhor quer sair antes do almoço? De carro ou a cavalo? 

- Não, obrigado. 

- A Diana já está selada. Mas em momento pode-se mudar a sela para o Nelson, ou aprontar-se a vitória. 

- É escusado. 

- A que horas o senhor deseja almoçar? 

- A hora do costume. Não há necessidade de alterar.

- Então às dez. 

O criado retirou-se para voltar uma hora depois: 

- O almoço está na mesa. 

- Quem mandou chamar? 

- A senhora. 

Seixas fez um aceno de cabeça, e deixou-se conduzir pelo criado. 

 

II 

 

No centro da sala estava a mesa onde os mais finos cristais irisavam-se aos raios da luz. Cambiando o esmalte da fina porcelana e as cores das frutas apinhadas em corbelhas de prata. 

O almoço era um banquete, não pela quantidade, o que seria de mau gosto; mas pela variedade e delicadeza de iguarias. 

Pelas janelas abertas sobre o jardim entravam com a brisa da manhã e a claridade de um formoso dia de verão, a fragrância das flores e o trinado dos canários de um elegante viveiro. 

Achavam-se na sala Aurélia e D. Firmina. 

A moça recostara-se em uma cadeira de balanço no claro de uma janela, de modo que seu gracioso vulto imergia-se na plena luz. Ao vê-la radiante de beleza e risos, se acreditara que ela de propósito afrontava o esplendor do dia, para ostentar a pureza imaculada de seu rosto e sua graça inalterável. 

Trajava um roupão de linho de alvura deslumbrante; eram azuis as fitas do cabelo e do cinto, bem como o cetim de um sapato raso, que lhe calçava o pé como o engaste de uma pérola. 

Fernando parou um instante ao entrar na sala; depois do que, firmando-se na resolução tomada, dirigiu-se a sua mulher para saudá-la. Todavia não calculava ele de que modo se desempenharia desse dever. 

Aurélia viu o movimento. A saudação matinal do marido ia despertar suspeitas em D. 

Firmina. 

Seixas adiantava-se. A moça ergueu-se estendendo-lhe a mão, e inclinando a cabeça sobre a espádua com uma ligeira inflexão, apresentou-lhe a face, para receber o casto beijo da esposa. 

Aquela mão porém estava gelada e hirta, como se fora de jaspe. A face, pouco antes risonha e faceira, contraíra-se de repente em uma expressão indefinível de indignação e desprezo. 

Fernando só reparou nessa mutação quando seus lábios roçavam a fria cútis, cuja pubescência eriçava-se como pelo áspero do feltro. Retraiu-se involuntariamente, embora naquela circunstância a carícia dessa mulher, de quem era marido, o humilhasse mais do que sua repulsa. 

- Vamos almoçar! disse a moça dirigindo-se à mesa e acenando ao marido e a D. 

Firmina que se aproximassem. 

Já não se via em seu belo semblante o menor traço do sarcasmo que o demudara; nem se conceberia que essa esplêndida formosura pudesse transformar-se na satânica imagem que Fernando vira pouco antes. 

Aurélia tomou a cabeceira da mesa. Fernando ficou à sua direita, em frente a D. 

Firmina. 

A princípio a moça ocupou-se unicamente em servir; depois trincando nos alvos dentes a polpa vermelha de uma lagosta, animou a conversação com uma palavra viva e cintilante. 

Nunca ela tinha revelado como nessa manhã, a graça de seu espírito e o brilho de sua imaginação. Também nunca o sorriso borbulhara de seus lábios tão florido; nem sua beleza se repassara daquelas efusões de contentamento. 

(continua...)

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