Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Bem sei que é cedo ainda para planizar futuros. Desculpe à simpatia que me inspira a indiscrição, mas aceite um amigo nesta hora atribulada.
— Aceito, e preciso dele... Mariana! — Chamou Simão. — Venha aqui, se este cavalheiro o permite.
Mariana entrou no quarto.
— Esta mulher tem sido a minha providência — disse Simão. — Porque ela me valeu, não senti a fome em dois anos e nove meses de cárcere. Tudo que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta criatura. Seja respeitável ao seus olhos, senhor, porque ela é tão pura como a verdade o deve ser nos lábios dum moribundo. Se eu morrer, senhor comandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se ela fosse minha irmã. Se ela quiser voltar à sua pátria, seja o seu protetor na passagem. — E, estendendo-lhe a mão, disse com transporte: — Promete-me isto, senhor? — Juro-lho.
O comandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com Mariana.
— Estou tranqüilo pelo seu futuro, minha amiga.
— Eu já o estava, senhor Simão — respondeu ela.
Não se trocam palavras por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as fontes arquejantes. Mariana, de pé, ao lado dele, fitava os olhos na luz mortiça da lâmpada oscilante, e cismava, como ele, na morte. E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.
CONCLUSÃO
As onze horas da noite, o comandante recolhera-se num beliche de passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas horas daquele dia.
Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente de um arame. O ouvido têlo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz única no silêncio da terra e céu.
A meia-noite, estendeu Simão o braço trêmulo ao maço das cartas que
Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que era dela.
Rompeu a obreia, e dispôs-se no camarote para alcançar o baço clarão da lâmpada.
Dizia assim a carta:
"É já o meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se Deus não me engana, está em descanso.
Eu devia poupar-te a esta última tortura; não devia escrever-te; mas perdoa à tua esposa do céu a culpa, pela consolação que sinto em conversar contigo a esta hora, hora final da noite da minha vida,
Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? Daqui a pouco.
perderás de vista este mosteiro; correrás milhares de léguas, e não acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga:
— A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que te resgate. — Se te pudesses iludir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava com a vida e com esperança de ver-te na volta do degredo? Assim pode ser, mas, ainda agora, neste solene momento, me domina a vontade de fazer-te sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem às vezes vaidade de mostrar que o é, até não podê-lo ser mais! Quero que digas: — Está morta, e morreu quando eu lhe tirei a última esperança. -
— Isto não é queixar-me, Simão: não é. Talvez, que eu pudesse resistir alguns dias à morte, se tu ficasses; mas, de um modo ou de outro, era inevitável fechar os olhos quando se rompesse o último fio, este último que se está partindo, e eu mesma o ouço partir.
Não vão estas palavras acrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar um remorso injusto à tua saudade.
Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse à minha alma esta visão!... Feliz, tu, meu pobre condenado!... Sem o querer, o meu amor agora te fazia injúria, julgando-te capaz de felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar ainda antes de sucumbires à dor do espírito.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.