Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Ó Joaquim, vê lá o que vais fazer! – insistia a mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E ele, assobiando o hino da Maria da Fonte, despejava a pólvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as duas braçadeiras. A mulher soluçava, e ele cantando numa surdina rouca:
Leva avante, portugueses, Leva avante, e não temer...
– Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos. E o Melro numa distracção lírica:
Pela santa liberdade,
Triunfar ou padecer...
Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da culatra para sentir a pressão do sopro, que fazia um frémito áspero impedido pelas escórias nitrosas. Pediu à mulher umas febras de algodão em rama, enroscou-as numa agulha de albarda e escarafunchou o ouvido do cano.
– Está suja – disse ele – dá cá um todo-nada de aguardente.
– Joaquim, vamo-nos deitar, pelas almas. Não te desgraces!
– Traz aguardente e cala-te, já to disse, mulher, com dez diabos! – E pôs-se a assobiar a Luisinha. Enroscou algodão embebido em aguardente no saca-trapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano até saírem brancas e secas as últimas farripas da zaracoteia. Soprou novamente e o ar saia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo igual. Parecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:
Agora, agora, agora, Luisinha, agora.
Armou a clavina, aparafusou as braçadeiras, a culatra e a fecharia, introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o cão repetidas vezes, acompanhando o movimento com o dedo polegar, paira certificar-se de que o desarmador, a caixeta e o fradete trabalhavam harmonicamente. Levantou o fuzil de aço, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com pólvora fina; e, com o bordo de um navalhão de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira que faiscava.
– Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! – soluçava a mulher. E ele, zangado com as lástimas da mulher, com expansão raivosa, num sfogato:
E viva a nossa rainha,
Luisinha Que é uma linda capitoa...
– Vai à loja atrás da seira dos figos e traz o maço dos cartuchos e uma cabacinha de pólvora de escorvar que está ao canto.
A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocações ao Bom Jesus de Braga, e às almas santas benditas. Ele encarou-a de esconso, e regougou:
– Mau!... mau!..
Carregou a. clavina com a pólvora de um cartucho; bateu com a coronha no sobrado, e deu algumas palmadas na recâmara para fazer descer a pólvora ao ouvido. Fez duas buchas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente, uma sobre a pólvora e a outra sobre a bala.
Agora, a gora, agora, Luisinha, agora.
Depois, pegou da clavina pela guarda-mata, e pôs-se a fazer pontarias vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.
A mulher fora sentar-se no sobrado, à beira da enxerga de três filhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procurá-la. Ó Alma Negra fora dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado num capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.
– Ora agora – disse ele – ouviste? porta da cozinha e a cancela da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.
– Vai com Nossa Senhora – disse a mulher; e pôs-se de joelhos a una estampa do Bom Jesus a rezar muitos padre-nossos, a fio.
Era uma noite de Fevereiro, de névoa cerrada, um céu de carvão pulverizado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrela. Não se agitava um galho de árvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva. Era a serenidade negra e imota das catacumbas. As vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no chão esponjoso das carvalheiras a fuga rápida das hardas, dos toirões e das raposas que se avizinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar de um gato-bravo, o pio da coruja no campanário distante punham arrepios de medo na espinha daquele homem que ia matar outro – chamá-lo à janela e vará-lo à traição com uma bala. – Era o traçado.
– Que raio de escuro! – dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.