Por Lima Barreto (1921)
Eram sete horas da tarde, em junho, portanto, noite fechada. Chuviscava. Tomei no Largo do Paço a Terceira – que, como as demais outras companheiras, só merecia uma numeração – Última.
Todas elas são o que há de mais “último” em ordinário e imprestável.
Tomei a barca, apesar do tempo; e, a bem dizer, por causa do tempo, porquanto queria apreciar a chuva no mar.
A barca moveu-se vagarosamente e parecia que as coisas corriam placidamente, quando, de súbito, ela parou no meio da baía. Que foi? Que não foi? Os poucos passageiros encheram-se de susto; a chuva e o vento recrudesceram violentamente.
Não se via um palmo adiante da proa da barca.
O que houve? A caldeira ameaçava arrebentar e o maquinista julgou de bom alvitre descarregar todo o vapor. Dessa forma, nem apitar se podia.
Alguns passageiros lembraram fazer uma gritaria. Todos se puseram a gritar como loucos; em breve, estavam todos exaustos. A barca derivava mansamente em direção à barra.
Era no tempo da nossa guerra branca e por isso foi lembrado o perigo das minas.
A barca perigava... Chovia, ventava e a noite estava escura como breu.
Os passageiros já tinham descansado as gargantas e iam de novo fazer gritaria; mas, mr Sharp, pastor protestante da seita dos Adventistas, julgou que era melhor entoar um salmo em uníssono.
Ninguém sabia esse salmo. Então, o senhor Silva Sousa, doutor em medicina, bacharel em ciências fisicas e matemáticas, advogado formado, cirurgião-dentista, farmacêutico, normalista diplomado pela Escola Normal de Campos e membro da Academia de Letras de Cubango (Niterói), propôs que se cantasse uma canção de sua lavra que devia fazer parte de uma revista de sua autoria, a ser levada em breve num cinema da capital Fluminense.
Foi aceito o alvitre e cantarolava-se uma coisa alegre enquanto a barca derivava em pleno oceano.
De repente, um jorro de luz inundou toda a barca. Era o holofote da fortaleza de Copacabana; logo em seguida, um tiro e um “melão” passou de raspão pela barca.
Certamente, os da fortaleza tinham tomado a barca por um couraçado alemão.
Não conto todas as peripécias, para não me tornar fastidioso. Para encurtar razões, direi somente aos senhores que fomos salvos já no litoral de São Paulo, depois de dois dias, por um navio suíço que passava na ocasião.
Não ficam só nisso, as proezas da Cantareira. Muitas outras ela tem realizado.
Ainda há dias, tanto perseguiu os seus bondes, negando-lhes tratamento e descanso, que os pobrezinhos endoideceram nas vias públicas de Niterói.
Suponho que os leitores tiveram notícia daqueles bondes que, sem tir-te nem guar-te , em plena cidade vizinha, deram o desespero, cuspiram na via pública motorneiros e passageiros; e até um deles veio em disparada pela cidade afora para só suspender a sua furiosa carreira, na ponte das barcas, envolvido em labaredas.
Tem-se visto muita coisa de pasmar; mas um bonde enlouquecer desse modo, só a Cantareira podia conseguir.
Careta, Rio, 1-11-1919.
EFEITOS DA LEI VALETUDINÁRIA
Depois que a autoridade policial messianicamente conseguiu escavar uma lei valetudinária de repressão ao alcoolismo, muitos casos curiosos se hão passado.
Temos visto a polícia provocar muitas coisas cômicas, mas nunca como as que tem feito com a tal lei arquivada de combate ao alcoolismo.
Uma das mais interessantes foi aquele fato de ter sido multado um negociante pela simples razão de ter vendido um refresco.
Conto o caso e é simples. Uma tarde destas, após sete horas, entrou em um botequim modesto da Rua da Ajuda, um homem razoavelmente trajado e pediu um grog . O caixeiro hesitou e, a princípio, recusou servi-lo.
O freguês, porém, argumentou e convenceu-o de que grog não podia ser
considerado bebida alcoólica, visto o álcool entrar ali em parte mínima e ser o seu efeito nocivo corrigido pelo seu parente o açúcar e pelo limão.
O caixeiro convenceu-se da coisa e vendeu a bebida. Nisto, entra um policial que não teve dúvidas: multou o botequineiro com todo o rigor da lei.
Os policiais ainda não estão de acordo se grog é bebida alcoólica; e julgam essa questão tão difícil como o senhor Pedro Lessa acha a de compreender um testamento.
Certo fato bastante curioso se deu também.
Uma manhã destas, entrou numa das nossas confeitarias, um jovem esbelto, possuidor das barbas mais negras deste mundo, aparentando dezoito anos.
Foi sentar-se e pediu uma dose de vermouth misturado.
O caixeiro mirou-o de alto abaixo e disse: – Não posso servir – Porque?
– Porque o senhor é menor.
– Como? Sou diretor aposentado de uma secretaria de Estado. Como é, então?
– Não sei... Não posso... A sua fisionomia não denota ter mais de vinte anos.
Mostre a certidão...
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.