Por Aluísio Azevedo (1882)
Pararam três vezes para descansar, à última nenhum dos dois podia articular palavra; o suor corria-lhes da fronte e as pernas tremiam-lhes convulsivamente. Mas Olímpia não desistiu do seu propósito; queria a todo transe chegar ao alto da montanha. Felizmente, o caminho em cima era plano até conduzir ao pequeno cômodo onde trabalhavam cantando os quatro homens.
Olímpia chegou aí exausta completamente de forças; sacudiu-lhe o corpo inteiro um arrepio, feito ao mesmo tempo de medo e de gosto; experimentava ela certa sensualidade em defrontar o abismo que se precipitava debaixo de seus pés. Precisava descansar, mas não tinha ânimo de desviar por um segundo a vista do belo panorama que se descortinava em torno. E, presa ao espaço pelos olhos, sentia-se arrebatar por um êxtase delicioso, como se estivesse desprendida da terra e pairasse volutuosamente nos ares.
Assim se quedou por alguns instantes, enquanto o pai ao seu lado descansava, sentado sobre uma pedra.
Depois, Olímpia começou a empalidecer gradualmente; foi pouco a pouco fechando os olhos, e teria caído de costas, se a não amparassem os homens que ali perto trabalhavam.
— Eu já previa isto mesmo, considerou o pai, ainda não restabelecido do cansaço. Lembrar-se de subir a estas alturas... E agora a volta?
— Pode vossemecê ficar tranqüilo, disse um dos britadores; eu me encarrego de descer esta senhora, sem que lhe aconteça a ela a menor lástima. — Ainda bem! respondeu o velho.
O trabalhador, que acabava de oferecer-se para levar Olímpia, era um moço de uns vinte e cinco anos. Forte, belo de vigor. Estava nu da cintura para cima, e a riqueza dos seus músculos patenteava-se ao sol com um arrojo de estátua. Os cabelos, empastados de suor, caíam-lhe em desalinho sobre a fronte tostada.
— Vamos! disse-lhe o comendador; não convém demorar-nos aqui... Veja se a pode trazer carregada!
O rapaz passou um dos braços na cintura de Olímpia e com o outro a suspendeu pelas curvas dos joelhos, chamando-lhe todo o corpo contra o seu largo peito nu. Ela, na inconsciência da síncope, deixou pender a cabeça sobre o ombro dele e continuou adormecida.
E os dois seguiram pela irregularidade íngreme do caminho. Era preciso muito cuidado para não rolarem juntos. Às vezes em um solavanco mais forte, o rosto gelado de Olímpia ia de encontro à face esfogueada do trabalhador.
Ela afinal soltou um gemido e abriu vagarosamente os olhos. Não perguntou onde estava, não indagou quem a conduzia, apenas esticou nervosamente os membros num estremecimento preguiçoso, para de novo se estreitar ao peito do rapaz, cingindo-lhe os braços em volta do pescoço. E tornou a cair no seu entorpecimento; ficou com os olhos a meio cerrados, as narinas sôfregas, os seios ofegantes e os lábios molemente separados por um espasmo volutuoso. Sentia-se muito bem no aconchego tépido daquele corpo de homem, penetrada pelo calor lascivo e vivificante do colo másculo que a sustinha. O contato daquela vigorosa carnação, criada ao ar livre e enriquecida pelo trabalho, sacudia-lhe os sentidos e acordava-lhe em sobressalto o sangue entorpecido pela ociosidade.
A descida tornava-se cada vez mais penosa. O moço fazia milagres de equilíbrio para não lhe faltar o pé. Olímpia parecia escorregar-lhe dos braços; ele a puxou mais para o ombro e a cingiu mais estreitamente contra o peito. Ela suspirava de leve, como em um sonho de amor, sentindo no rosto a respiração quente e acelerada do cavouqueiro, e nas carnes macias da garganta o roçagar das suas barbas ásperas e mal tratadas.
Quando chegaram embaixo, já o Papá Falconnet, que assistira ao episódio dos fundos do seu hotel, os esperava com duas cadeiras.
O velho assentou-se logo em uma delas; enquanto na outra o trabalhador depunha Olímpia.
Foi então que ela abriu de todo os olhos.
— Ah! exclamou, cobrindo o rosto com as mãos, sem poder encarar para o rapaz que a trouxera ao colo. Fazia-lhe mal agora olhar para aquele homem de corpo nu, que defronte dela limpava com os dedos o suor da testa. As faces tingiram-se-lhe de pronto rubor e uma aflição terrível apoderou-se-lhe da garganta. Olímpia chamou com um gesto o pai para junto de si e entre gritos começou a estrebuchar nervosamente.
Foi uma crise fortíssima. Ela nunca havia sofrido igual.
O Papá Falconnet apresentou logo um frasquinho de sais e deu providências para que se recolhesse a enferma à casa dele, sem que fosse necessário dar a volta pela rua. Abriu-se de improviso, uma passagem na cerca do fundo da avenida, e Olímpia, carregada na cadeira, era dai a pouco conduzida a um aposento preparado às pressas.
A crise cessou pouco depois, mas Olímpia sentiu febre, dores de cabeça e vontade de vomitar. Mandou-se chamar o médico que ficava mais próximo, e dentro de três horas a enferma voltava no seu carro para Botafogo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.