Por Aluísio Azevedo (1884)
— Tenho certeza! Mas, vem cá, o partido conservador é o único que te convém, é o único que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre é melhor estar com o poder... não acredites que os liberais levantem tão cedo a cabeça! E, se levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-ás na oposição, ficas na brecha! terás a luta, terás a reação às tuas ordens! Só o que te falta é a prática, são as relações políticas. — Isso obterás rapidamente, juro-te eu, que conheço essa gente como a palma de minhas mãos!...
— Enfim, não te faltam os elementos! ... segredou depois uma pausa, piscando o olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro. — Não é tanto como supões! respondeu o Borges.
E, assim conversando, chegaram à estação do desembarque, onde, segundo o costume, havia já uma confusão de curiosos, e onde já estavam os empregados dos hotéis, que vinham com os seus carros à pesca de hóspedes.
De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.
Borges entregou a bagagem a um moço do hotel Bragança, deu-lhe o bilhete da carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou o carro que lhe competia, e os três seguiram alegremente, devorados de apetite.
Petrópolis produziu no Borges uma impressão inteiramente contrária à que produziu em Filomena.
Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um paraíso da elegância, colocado entre rochedos; adorável com as suas pequenas ruas encentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa distância, belos canteiros de verdura, onde a magnólia, a camélia, o cravo, a açucena e a rosa disputam a primazia em número e beleza.
A acumulação dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do céu, a frescura do ar, prontamente impressionaram o seu espírito, sempre voltado ao pitoresco, ao recreativo, ao Ideal. Além disso, as criancinhas louras, descalças, caminhando em bando para a escola, as criadas alemãs, de olhos azuis, a boca vermelha e a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, o africano e repulsivo aspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da lendária e melancólica Germânia.
E no Borges as primeiras impressões foram justamente o contrário de tudo isso. Espirito prático, e por demais ferrenho, não se cegou logo pelas aparências do mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petrópolis friamente, com todo o peso do seu bom senso grosseiro e burguês.
O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos, supondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando aliás Sua Majestade, astro sem brilho próprio, não podia emprestá-lo a quem quer que fosse.
Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios, ele, o Borges, notava que Petrópolis, com os seus decrépitos laudêmios, com as suas sesmarias, as suas enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais, continuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante tocar em qualquer coisa, que lá estivesse, para se sentir logo a dois passos, o olho vigilante e repressivo do proprietário, do dono.
Por toda a parte, em tudo, o mesmo prestígio do "Senhor". A mesma impertinência do "Amo".
— Bela rua! exclamou o barão, considerando a rua D. Afonso, depois de percorrer as ruas do Imperador e da Princesa Januária.
— É, exato! responderam-lhe — o Imperador acha-a bonita!...
— Não morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra vez.
— Não! contradisseram-lhe, esta cerveja é magnífica — o Imperador gosta!...
E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer informação. As idéias, as frases giravam sempre sobre o mesmo parafuso — o Imperador. Era ele sempre o ponto da partida, o termo de comparação, a base, o princípio, o fim, o meio.
— Ora bolas! exclamou o Borges, afinal já importunado com aquele servilismo. — Para qualquer lado, que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo! No fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? Não estou aqui por obséquio, não estou na casa de ninguém; estou num hotel, a tanto por dia! Ora essa! pago com o meu dinheiro!
O Guterres então contrapunha argumentos cheios de prudência e reflexão. — O amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! Não era isso que mais convinha aos seus projetos políticos! Que diabo! Não custava coisa alguma guardar umas tantas conveniências!...
— Estou vendo é que mando para o inferno a tal idéia de minha mulher e musco-me daqui quanto antes! — Ah! meu Paquetá! meu Paquetá!
Não sabia porque, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha! Faziam-lhe mal aos nervos aquela elegância convencional, aquele falso luxo, aquela preocupação de "parecer rico", que notava em quantos iam passar ali o verão.
— Súcia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de tédio.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.