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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

O guarda-livros, no dia seguinte pela manhã, declarou a Mme. Brizard que se retirava da casa de pensão.

— Oh! Disse. — Não estava disposto a suportar por mais tempo aquele zungu! Os seus vizinhos eram uma gente impossível! — Não se passava uma noite em que não houvesse chinfrinada!...Não! definitivamente não podia ficar! De mais — O tísico do n.° 7 não lhe dava um momento de descanso com o diabo de uma tosse, que parecia aumentar todos os dias! Nada! Antes tomar um quarto no inferno!

Mme. Brizard e o marido procuravam dissuadi-lo de tal resolução. Não lhes convinha perder um hóspede tão bom.

O guarda-livros, com efeito, era muito pontual nos pagamentos e não incomodava pessoa alguma, porque só queria o quarto para dormir; verdade é que não fazia o gasto da comida, mas em compensação estava sempre a encomendar ceiatas e jantares que deixavam bem bom lucro.

A ter por conseguinte, de sair alguém, antes fosse o tal rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir uma mulher insuportável, achava-se já atrasado nas suas contas, e os donos da casa não viam muito certo o recebimento.

Catarina, assim que soube de semelhantes considerações, desceu em três pulos ao primeiro andar e, atravessando-se defronte do Coqueiro, com as mãos nas ilhargas, gritou-lhe, refilando as presas:

— Repita você o que teve o atrevimento de dizer a meu respeito e a respeito de meu marido! Repita aí, se for capaz, que lhe mostro já para quanto presto, seu cara de fome!

João Coqueiro, muito pálido e com o lábio superior a tremer, exclamou que “sua casa não era Praia do Peixe”; que ele não estava habituado “àqueles banzés”! Quem quisesse dar escândalos que fosse lá para o meio da rua, que se fosse entender com as regateiras!

— Regateiras e regateiros são vocês, corja de gatunos! Replicou a outra.

Mme. Brizard, que por essa ocasião, ainda no quarto, enfiava as botinas, acudiu logo, um pé calçado e outro não, e, com tal fúria avançou contra a mulher do

Paula Mendes, que Amélia, o Coqueiro e Nini não a puderam conter As duas atracaram-se.

Os hóspedes, que estavam em casa, acudiram todos igualmente. Houve bordoada, gritos, palavrões. Nini teve um ataque de nervos.

O ilustre Lambertosa teve vários empurrões e caiu contra uma cesta de ovos, que o copeiro acabava de pousar no chão, para socorrer as senhoras

E, no meio de toda esta desordem, destacava-se a voz sibilante do advogado Tavares.

— Calma, senhores! Calma! Bradava ele. — Calma por quem sois! Esqueceivos de que a única arma do homem civilizado deve ser a palavra, escrita ou falada, a idéia, enfim?! Esquecei-vos de que cada um de vós possui um cérebro, onde reside uma partícula da sabedoria divina, e que só com esse cabedal podeis cruzar as vossa opiniões, sem que seja necessário vos agatanhardes como animais selvagens ferozes?!...Virgílio, meus senhores, o imortal Virgílio, o verdadeiro fundador da eloqüência, diz muito acertadamente na sua Eneida, Livro IV, com referência à desditosa Dido — Pendet que iteram narrantis ab ore! Se podemos, pois, convencer com palavras, para que havemos de recorrer aos murros?!

E , loco do costumado . entusiasmo, dava punhadas frenéticas na mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados e as cordoveias intumescidas:

— E o que dizia Salomão?! E o que dizia Salomão, na sua inquebrantável sabedoria?! Salomão, meus senhores...

Mas o orador foi interrompido violentamente pelo Coqueiro, que desejava saber se ele podia dispensar o seu quarto ao guarda –livros e mudar-se para o n.° 6 do segundo andar.

Haviam combinado essa mudança enquanto o tagarela discursava.

— Salomão! Sr. Dr. Coqueiro, Salomão foi um prodígio!

— Pois bem, já sabemos disso, e agora o que nos convém saber é se V. S.a cede ou não cede o seu quarto...

Mas não foi necessário tal assentimento, porque Amâncio, depois de um sinal de Lúcia, declarou que cederia o seu gabinete por qualquer um dos quartos do segundo andar.

Coqueiro espantou-se. — Querer trocar o gabinete por um quarto do segundo andar!...Ora, seu Amâncio!

— Faz-me conta, respondeu secamente o provinciano. E, chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido: — Logo mais te direi a razão por que...

Ficou resolvido que o guarda-livros passaria a ocupar o gabinete de Amâncio; este iria para o n.° 6, e o Paula Mendes e mais mulher deixariam de comer à mesa de Mme. Brizard, continuando, porém no n.° 5, até que liquidassem as suas contas.

* * *

Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as senhoras combinaram em tomar o café na chácara. Mme. Brizard, Amelinha, Lúcia e Nini, mal acabaram de jantar, desceram ao terraço. Coqueiro e Amâncio já iriam também para o cavaco. — Tinham primeiro que dar dois dedos de conversa.

(continua...)

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