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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Freqüentemente, em seus versos, Seixas falava de estrelas, flores e brisas, de que tirava imagens para exprimir a graça da mulher e as emoções do amor. Pura imitação: como em geral os poetas da civilização, ele não recebia da realidade essas impressões, e sim de uma variada leitura. Originais somente, são aqueles engenhos que se infundem na natureza, musa inexaurível porque é divina. Para isso é preciso, ou nascer nas idades primitivas, ou desprezar a sociedade e refugiar-se na solidão. 

Naquele momento porém, assistindo ao romper do dia, ali no meio do jardim, Seixas sentia que além das cores brilhantes, das formas graciosas e dos perfumes agrestes, havia alguma coisa de imaterial que palpitava no seio desse ermo, e que infundia-se em seu ser. 

Era a alma da criação que o envolvia, e comungava sua alma a inefável serenidade da límpida e fresca manhã. 

Com a calma que derramou-se em seu espírito, ainda mais robusteceu-se a resolução tomada pouco antes. Encheu-se dessa fria resignação, que imprime à alma uma têmpera inflexível. 

Tirou-o de suas cogitações um rumor, que levantara-se ali perto. Voltou-se, e reconheceu que estava próximo à grade exterior, oculta nesse lugar pela famosa folhagem do arvoredo. Afastou os ramos e aproximou-se para conhecer a causa do ruído. Talvez receasse que o estivessem espreitando, e talvez fosse movido por essa curiosidade fútil que se apodera do homem, a quem um abalo violento arrancou às preocupações habituais. 

Um mascate de quinquilharias arreara na calçada a caixa que trazia a tiracolo, e sentado no chão, com as costas apoiadas no muro, fazia suas contas e dava balanço à mercadoria. Ou madrugara com intenção de estender o giro, ou apanhado pela noite longe de casa, a passara em alguma estalagem, e ia agora recolhendo-se, o que parecia mais provável. 

Na tampa emborcada da caixa, viam-se presos de cadarços, pregados de vários objetos, que atraíram especialmente a atenção de Seixas. 

Fez ele um movimento para diante, como se quisesse chamar o mascate. Retraiu-se porém com certo vexame; dir-se-ia que estivera a praticar uma leviandade, da qual o advertira em tempo sua razão. 

Como quer que fosse, ao cabo de alguma hesitação, venceu a primeira repugnância, mas não ao pejo do ato que ia praticar. Lançou pelos arredores um olhar perscrutador e verificando que a rua estava deserta, estendeu o braço fora da grade e bateu no ombro do mascate: 

- Chi va... exclamou o mascate voltando-se. 

Não viu as feições de Seixas que se afastara da grade, e escondia-se por trás da folhagem; mas percebeu uma moeda de dois cruzeiros que flutuava-lhe acima da cabeça, e tinha para ele de certo mais encanto do que a fisionomia do freguês. 

- Um pente e uma escova de dentes, disse Seixas em tom rápido. Depressa! 

- Questo? perguntou o mascate tirando da tampa um pente de búfalo.

- Sim, qualquer. Não posso esperar. 

O mascate passou os objetos; arrecadou a moeda e querendo apresentar o troco percebeu que o freguês havia desaparecido. 

- Che birbone! 

Entendeu o mascate que um dinheiro assim atirado fora com tanto desamor, era furtado; e por cautela foi arrumando a trouxa e fazendo-se ao largo, antes que lhe surgisse alguma complicação. 

Fazendo esta observação, lembrou-se Fernando da posição em que deixara Aurélia na véspera, e de si mesmo inquiriu que teria ela feito nessa longa noite de agonia. Naturalmente passara-a, extasiando-se no júbilo da humilhação que lhe infligira, e afinal saciada dessa vingança brutal, adormecera na febre de seu orgulho. 

Se ao atravessar o jardim ele examinasse disfarçadamente as janelas desse lado da casa, talvez satisfizesse em parte sua curiosidade. Uma das alvas e diáfanas cortinas de cassa estendidas por detrás da vidraça, tinha-se esfumado de uma sombra interior que desenhava o contorno delicado de um busto. 

Já era sol alto quando Seixas ouviu mexer na maçaneta da porta, que de seus aposentos comunicavam para o interior da casa. Era sem dúvida o criado que vinha preparar-lhe o toucador para o asseio da manhã. Achando a porta fechada e pensando que era escusado bater àquela hora, retirou-se. 

Havia água no jarro de porcelana de Sevres, que ornava o rico lavatório de paucetim. Seixas esteve em dúvida algum tempo, mas pensando que a louça não perdia o seu verniz de novidade por ser molhada uma vez, resolveu-se a lavar o rosto no serviço luxuoso. Usou porém no resto de seu adereço, do pente e escova que havia comprado. 

Terminando, enxugou com uma toalha de seu próprio enxoval a bacia e o lavatório; trancou em sua secretária os objetos que o podiam denunciar; e abrindo a porta de comunicação, sentou-se, já vestido e pronto com seu costumado apuro, na otomana, à espera... Nem ele sabia de que. Depois da decepção que o precipitara do cúmulo da felicidade àquela incrível situação, podia ele conhecer que peripécias ainda lhe reservaram o drama em que se agitava sua existência? 

Com pouco aparece o criado. 

(continua...)

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