Por Camilo Castelo Branco (1862)
Ouviu-se a voz de levar âncora e largar amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.
Viu agitar-se um lenço, e ele respondeu com o seu àquele aceno. Desceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não era de Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da claustra ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.
— É Teresa? — perguntou Simão a Mariana.
— É, senhor, é ela — disse num afogado gemido a generosa criatura, ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera.
De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviu Simão um movimento impetuoso de alguns braços e o desaparecimento de Teresa e do vulto de Constança, que ele divisara mais tarde.
A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte da barra, e o súbito encapelamento das ondas causara a suspensão da viagem anunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor, que mandava lançar ferro até novas ordens. Mais tarde adiou-se a saída para o dia seguinte.
E, no entanto, 5imáo Botelho, como o cadáver embalsamado, cujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, lá tinha os seus imersos na interior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E as horas passaram até que o derradeiro raio de Sol se apagou nas grades do mosteiro.
Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou, com os olhos embaciados de lágrimas. o desterrado, que contemplava as primeiras estrelas, iminentes ao mirante,
— Procura-a no céu? — disse o nauta.
— Se a procuro no céu... — repetiu maquinalmente Simão.
— Sim!... No céu deve ela estar.
— Quem, senhor?
— Teresa.
— Teresa...! Morreu?!
— Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando.
Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O comandante lançou-lhe os braços, e disse:
— Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar crêem em Deus! Espere que o céu se abra para si pelas súplicas daquele anjo!
Mariana estava um passo atrás de Simão, e tinha as mãos erguidas.
— Acabou-se tudo!... — murmurou Simão. — Eis-me livre... para a morte... Senhor comandante — continuou ele energicamente — eu não me suicido. Pode deixar-me.
— Peço-lhe que se recolha à câmara. O seu beliche está ao pé do meu.
— É obrigatório recolher-me?
— Para vossa senhoria não há obrigações; há rogos: peço-lhe, não mando. — Vou, e agradeço a compaixão.
Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau, quando o poeta desembarcava, segundo a idéia apaixonada do cantor de Camões. Encarou nela Simão, e disse ao comandante:
— E esta infeliz?
— Que o siga... — respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.
Simão recolheu-se ao beliche, e o comandante sentou-se em frente dele, e Mariana ficou no escuro da câmara a chorar.
— Fale, senhor Simão! — disse o comandante — desafogue e chore.
— Chorei, senhor!
— Eu não tinha imaginado uma angústia igual à sua. A invenção humana não criou ainda um quadro tão atroz. Arrepiam-se-me os cabelos, e tenho visto espetáculos horríveis na terra e no mar.
Acintemente, o comandante estava provocando Simão ao desabafo. Não respondia o condenado. Ouvia os soluços de Mariana, e tinha os olhos postos no maço das Cartas, que pusera sobre uma banqueta. O capitão prosseguiu:
— Quando em Miragaia me contaram a morte daquela senhora, pedi a uma pessoa relacionada no convento que me levasse a ouvir de alguma freira a triste história. Uma religiosa ma contou; mas eram mais os gemidos que as palavras. Soube que ela, quando descíamos na altura do Oiro, proferia em alta voz: — "Simão, adeus até à eternidade!" — E caiu nos braços duma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a trouxeram meio-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma palavra mais lhe ouviram. Depois, contaram-me o que ela penara em dois anos e nove meses naquele mosteiro; o amor que ela lhe tinha, e as mil mortes que ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria. Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!
— Por pouco tempo... — disse Simão, como se o dissesse a si próprio, ou a própria imaginação estivesse dialogando consigo.
— Creio, creio, por pouco tempo — prosseguiu o capitão — mas, se os amigos pudessem salvá-lo, senhor, eu dar-lhes-ia na Índia mais fiéis que em Portugal. Prometo-lhe, sob a minha palavra de honra, alcançar do Viso-Rei a sua residência em Goa. Prometo segurar-lhe um decente principio de vida e as comodidades que fazem a existência tão saudável como ela é na Ásia. Não o intimide a idéia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por vencer-se, e será feliz!
— O seu silêncio, por piedade, senhor... — atalhou o degredado.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.