Por Camilo Castelo Branco (1882)
No entanto, Zeferino debatia-se num azedume de desesperado, muito má-língua, insano de paixão, a degenerar para facínora em teorias de escavacar meio mundo. Começou a superar-lhe nas entranhas o vício do pai com sedes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia alívios, consolações inefáveis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe melhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta e monte. Trocava na mesa da tavolagem peças de duas caras que comprara no tempo em que amealhara dez mil cruzados com dez anos de trabalho. Os parceiros roubavam-no. Vinham de noite de Famalicão a Landim, perto das Lamelas, jogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pego. Depois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira, embriagava-se de novo, e nessas alucinações ia a Prazins, de clavina ao ombro, com o Tagarro de Monte Córdova, e falava alto, com petulância, paira que Marta o ouvisse. O brasileiro e o Simeão tinham-lhe medo e não abriam as janelas depois do Sol posto.
Espalhou-se então a notícia de que o brasileiro ia efectivamente casar com a sobrinha.
O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta anónima, que era um traslado aumentado do depoimento do pedreiro que vira o José Dias saltar da janela. E por fim ameaçava-o: – que, se casasse com a Marta, não a havia de gozar muito tempo. O Feliciano mostrou a carta ao irmão. Concordaram que era o pedreiro com a sua paixão, danado de raiva. O brasileiro entrou a cismar que o celerado era capaz de levar a vingança ao cabo – bater-lhe, matálo. Os tiros desfechados à sua honra de marido de Marta resvalavam-lhe na couraça da consciência: , dizia ele; mas a ideia de um tiro ao seu físico, inquietava-o deveras. , dizia o brasileiro ao mano, num grande mistério.
Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de olhos estrábicos, de alcunha o Alma Negra, um que o tinha avisado, quando a malta da patuleia tencionava agarrá-lo. O Melro rompera relações com o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do correio de Guimarães, e dizia hiperbolicamente ao seu compadre que o Zeferino, quando andara na patuleia, era ladrão como rato.
O Melro era má bisca. Estivera três anos na Relação como cúmplice num homicídio que se fizera na sua tasca. Vivia apertadamente com mulher e quatro filhos, e não cessava de pedir empréstimos ao compadre desde que o avisara. Quando o Simeão foi espancado, o Melro logo lhe disse era segredo que quem lhe batera fora o Zeferino, com as costas guardadas par dois pimpões do Monte Córdova. E acrescentou: – Ele bem sabe a quem as faz. Havia de ser comigo ou com pessoa que me doesse...
O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre. Disse-lhe que ia ver a quinta da Comenda que se vendia; que lha fosse mostrar. Conversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com três janelas e um quintal espaçoso.
– É aqui – disse o Melro.
O brasileiro pôs o monóculo e leu um bilhete pregado na porta com quatro tachas: Domingo, às 10 da manhã, depois da missa, vai à praça a quem mais der sobre a avaliação judicial de 500$000 réis esta casa, dízima a Deus, para partilhas. O Feliciano leu, retirou-se apressado para que o não vissem, murmurando quaisquer palavras a que o compadre Melro respondeu:
– Vossoria então está a ler! Tão certo tivesse eu o Céu como tenho a casa...
Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos fregueses da taverna que o seu compadre ia comprar a quinta da Comenda, e que estivera a ler o escrito da casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a dar a um afilhado...
– Ao teu pequeno?! – perguntavam.
– Pois a quem há-de ser! Aquilo é que é um homem às direitas!
– Ele não sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa como a mim pagar-te um quarteirão de aguardente – encareceu uni pedreiro. – Anda agora a trabalhar no palácio da Retorta. Que riqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para lá viver logo que case com a Marta. Lá o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos! Isso diz que dá cada arranco...
– O Zeferino, a falar a verdade, tem razão – disse o Melro. – O Simeão tinha-lha prometido. Gente sem palavra que a leve o Diabo! Eu, se fosse comigo... Mas, enfim, é irmão do meu compadre... não devo dizer nada. Que se governem.
O Melro, às 8 da noite, quando os fregueses desalojaram, fechou a taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse à mulher:
– A casa do Cambado é nossa, mas é preciso vindimar o Zeferino...
– Credo! – exclamou a mulher com as mãos na cabeça. – Nossa Senhora nos acuda!
– Leva rumar! – e punha o dedo no nariz.
– Ó Joaquim, ó marido da minha alma, lembra-te dos três anos que penaste na cadeia! Olha para aqueles quatro filhos!..
– Já te disse que me não cantes – e relançava-lhe o seu formidável olhar vesgo incendido como os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo de pau. Depois, foi tirar de entre a cama de bancos e a parede uma velha clavina. Sentou-se à lareira e disse à mulher que tivesse mão na candeia. Enroscou o saca-trapo na ponta da vareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e depois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da mão.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.