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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Andaram bem os nossos operários escolhendo para o seu representante, no congresso operário de Washington, o doutor Fausto Ferraz.

Não há homem mais trabalhista do que ele, sobretudo da língua; e, em tudo e por tudo, essa escolha é acertadíssima.

Na conferência da América do Norte, o jovem operário Fausto Ferraz, há bem pouco tempo iniciado em qualquer ofício manual, será o expoente, como se diz na Academia, das nossas classes trabalhadoras. O que era preciso, era darem-lhe um companheiro. Lembramos o banqueiro João Ribeiro.

Coreto, Rio, 1-11-1919.

COERÊNCIA

Um grande salão, forrado de estantes de luxo, pejadas de grossos livros virgens, os onze mil da anedota, o grande político, pela manhã, lê os jornais, depois de um excelente banho morno e um suculento chocolate com torradas.

Está com o vestuário mais que caseiro, pois espera o grande banqueiro Baruc para tratar de um empréstimo, destinado ao saneamento da cidade de Itaçucê que faz parte do seu distrito eleitoral.

Abre em primeiro lugar o Diário do Rio de Janeiro, dirigido pelo grande jornalista português Alcoforado . É o jornalista de sua paixão, ainda últimamente, na questão da Estrada de Ferro da Trindade, proporcionou-lhe meios e modos de ganhar nada menos de duzentos contos.

Lê o artigo de fundo e este período enche-o de júbilo:

“O nosso Brasil muito deve à república. Os seus homens públicos têm sido de um grande desvelo e carinho no enfrentar os problemas máximos da nossa pátria, resolvendo-os com perfeição e sabedoria.” Por aí ele quase exclama:

– Este português tem muito talento!

Refletia, mas absteve-se de gritar, para não parecer maluco. Acabou de ler o artigo de Alcoforado e tomou o diário rubro – A Idéia Nacional – dirigido pelo mais jacobino dos nossos jovens jornalistas. Deixou um artigo enorme, na primeira coluna, que tratava de – Os Bandeirantes e a idéia nacional, passou para a quarta, onde se lhe deparou esse tópico:

“Não é possível que a sociedade nacional permita que o português Alcoforado emita juízos sobre a nossa política interna. Essas coisas só podem e devem ser discutidas pelos brasileiros natos, pois só a eles interessam, porquanto se supõe que quem as segue, é porque aspira o cargo de presidente que só pode ser exercido por brasileim nato.”

Neste ponto, o grave político suspendeu a leitura, tanto estava arranhado e disse de si para si:

– Que argumentos! Homessa!

Anunciaram-lhe a chegada do grande Alcoforado. Mandou que o fizessem entrar. Não tardou que tal se realizasse; e o homem entrou mesureiro, consumado cortesão que era. Quem o visse lá fora, arrogante com os inferiores e subalternos, não o reconheceria ali, quase de joelhos diante daquele manipanso210 parlamentar. Após os cumprimentos, o senador perguntou:

– Alcoforado, você leu o suelto do Bretas, na A Idéia?

– Li, excelentíssimo. Vossa excelência quer que lhe diga uma coisa?

– Diga.

– Esse Bretas é um asno.

– Não é só isso. Ele mostra ser de uma ignorância crassa. A Constituição permite a todos, a livre manifestação de pensamento e não faz distinção entre nacionais e estrangeiros.

– É verdade, fez Alcoforado; mas não vale a pena discutir com um tipo como esse Bretas. É perder tempo!

Falaram depois sobre emoções, negócios, pândegas; e, ao olhar o monte de

jornais, Alcoforado foi ferido pelo título de um modesto jornaleco – O Inimigo das Leis.

– Vossa excelência lê isto?

– O que?

– O Inimigo das Leis.

– Que é? É a primeira vez que o recebo.

– É um jornaleco anarquista, virulento e violento.

– Não conhecia.

– Quer ver, vossa excelência! Vou abri-lo e ler-lhe um trecho.

– Vamos ver.

Alcoforado abre o jornal e lê:

“A República do Brasil, como em toda a parte, falhou.”

“A burguesia capitalística, industrial, comercial, jurídica e administrativa, como nos demais países do mundo, se há mostrado incapaz de guiar o rebanho humano para a felicidade.”

– Ouviu, vossa excelência?

– Ouvi! Quem assina isto?

– É um tal Pantaleone – Quem é?

– É um italiano que foi sapateiro e, aqui, ganhou algumas luzes e vive da exploração dos operários, sob o pretexto de propagar idéias avançadas.

– É preciso expulsá-lo.

– Acho que sim.

– Vou hoje mesmo ao chefe de polícia.

– Vossa excelência faz muito bem.

– É uma medida de profilaxia social.

– Não há dúvida alguma.

Nisto entrava o banqueiro Baruc e a conversa tomou outro rumo. Careta, Rio, 1-11-1919.

HISTÓRIAS DE NITERÓI

Aquela Cantareira da antiga Praia Grande é a companhia de navegação e de viação mais fantástica que se pode imaginar.

Há poucos anos, tencionando dar um simples passeio na outra banda da Guanabara, tomei uma das suas tartarugas e quase fui parar em Montevidéo ou Buenos Aires. Não só eu, como os demais passageiros.

(continua...)

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