Por Aluísio Azevedo (1882)
— Hem?! perguntou a rapariga, arregaçando os lábios e franzindo o belo narizinho.
— Sim... respondeu o pai; o Dr. Roberto acha que devemos fazer uma viagem...
— Ai está porque eu não queria visitas de médico! exclamou ela. Eu não saio do Rio de Janeiro! Logo vi que havia de aparecer alguma contrariedade!
— Bem, minha filha, não falemos mais nisso! Ele, coitado! se recomenda uma viagem, é porque acha naturalmente que isso te aproveitaria. Ora! também estás agora com umas esquisitices que...
— Que se não podem aturar! Não é isso o que o senhor quer dizer, meu pai?!
— Não senhora, não é isso! nem admito que estejas agora aqui a imaginar tolices. Não queres fazer a viagem, pois não a faremos!... E o mesmo sucederá com os banhos, com os passeios e com as distrações!...
No dia seguinte o comendador falou em três meses de Petrópolis. Estava aí o verão e não havia necessidade de suportar o calor da Corte.
— Não quero ir, respondeu laconicamente a filha.
E não se falou mais nisso.
Foram depois lembrados outros passeios, mas Olímpia recusou-os igualmente.
— Para onde então queres ir? perguntou o velho, lembrando-se da recomendação que lhe fizera o médico de a não contrariar.
— Não sei, disse ela sacudindo os ombros. Podemos passear todos os dias de manhã aqui mesmo pela Corte. Iremos hoje a um arrabalde, amanhã a outro... Quanto aos tais banhos, não! deixemo-nos de banhos de mar!
No dia seguinte o comendador tratou de adquirir sege e alimárias próprias para os passeios campestres. Sairiam cedo de casa e, quando estivessem em pleno campo, entrariam a andar de pé por entre a vegetação. Olímpia não podia suportar o bonde e tomara medo de montar a cavalo desde que abriu a sofrer dos nervos.
Uma vez passeavam pelo Rio Comprido. O carro ficara com o cocheiro à espera no caminho da Tijuca. Olímpia pelo braço do pai, caminhava vagarosamente, entretida a olhar para os objetos que a cercavam. Em certa altura parou, impressionada por um canto monótono, que lhe chegava aos ouvidos de modo estranho.
— Que é isto?... perguntou ao comendador.
— Devem ser os trabalhadores de alguma pedreira por aqui perto. E assim que eles cantam quando brocam a pedra, para lhe introduzir a pólvora e lançar fogo depois.
— Ah! disse Olímpia muito interessada. E onde é a pedreira?...
— Não sei, mas é naturalmente para este lado. É daqui que vem o canto. E o velho apontou para a sua direita.
— Vamos lá! propôs Olímpia.
O pai não se animou a contrariá-la e os dois continuaram a caminhar na direção do canto dos trabalhadores.
Depois de andarem por algum tempo, acharam-se com efeito à fralda de uma grande pedreira, que fica situada aos fundos da Avenida Estrela.
Olímpia parou dominada pelo espetáculo grandioso que tinha defronte dos olhos. A montanha com o seu ventre já muito retalhado, surgia da terra, como um gigante de pedra, e arrojava-se, imponente para o céu. Via-se o âmago branco e azulado da rocha reverberar aos primeiros raios do sol. Embaixo amontoavam-se as enormes avalanches de granito, ruídas e arrojadas impetuosamente pela explosão da pólvora. De todos os lados, ouviam-se a trabalhar o picão e o macete; e além, sobre o calvo píncaro da montanha, quatro homens cantavam agarrados a um imenso furão de ferro com que penosamente abriam uma nova mina.
Todas as vezes que suspendiam a pesada barra de ferro, repetiam o seu coro monótono e triste, que ouvido de longe, parecia uma súplica religiosa.
Foram esses os sons que impressionaram Olímpia. E, com efeito, havia algum encanto melancólico naquela cansada cantilena dos trabalhadores.
— Vamos lá! disse ela ao pai.
— Onde, minha filha?... perguntou o velho assustado.
— Lá em cima, onde aqueles homens estão abrindo a pedra. Eu quero ir ver aquilo...
— Estás sonhando!... respondeu o comendador; não sou tão louco que consinta em semelhante imprudência! Esta pedreira é muito alta; tu sentirias vertigens e serias capaz de perder os sentidos!...
— Não faz mal; eu quero ir!
— Não! deixa-te disso!
— Ora, meu pai, não me contrarie por amor de Deus!
E Olímpia soltou-se-lhe do braço e foi perguntar ao trabalhador que ficava mais perto por onde se subia para a pedreira. Depois de informada, encaminhou-se para o lugar indicado.
— Espera aí! gritou o pobre velho, tentando alcançá-la. Espera, Olímpia! eu te acompanho, minha filha!
E correu para ela.
Olímpia havia já galgado o primeiro lance da pedreira.
A subida foi penosa. O caminho era estreito, irregular e seixoso, as vezes o pé não encontrava resistência, porque o cascalho rolava sob ele. Olímpia, sem querer dar parte de fraca, segurava arquejante ao braço do comendador, mas este mesmo sabe Deus com que esforços conseguia não perder o equilíbrio!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.