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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, João?... Bem sei que és escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos obséquios; eu, porém, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que disseres.

— Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido se não fores! oh!

— E eu dou-te também a minha palavra que, nem a tiro, conseguirás que eu mude de resolução!

— Nesse caso ê birra! exclamou o Borges, sem poder disfarçar a impaciência.

— Será o que tu quiseres! bradou o teimoso. — Mas eu considero do meu dever não te deixar ir só!

E com orgulho:

— Não! Que não sou desses amigos que só aparecem pelo bom tempo!... Não senhor!... Sei que vais doente, cansado, prostrado... sei que hás de precisar de um bom amigo ao pé de ti, que te dê coragem, que te anime! Sei que levas projetos de escrever artigos políticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltarão as forças para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir só. Oh! não te mereço semelhante injustiça! Eu supunha, João, que fizesses de mim um melhor juízo!...

— Ora essa!...

— Não! não! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu não te acompanhasse!...

Borges ainda protestou, não, porém, com o mesmo ardor; as palavras do amigo a respeito dos tais projetos políticos o interessaram sobremaneira. O Guterres gozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente. Verdade é que seria difícil citar-lhe as obras; Borges não se lembrava de haver posto os olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho de imprensa, mas, por várias vezes ouvira conversar a respeito do talento do Guterres: — "Se não fosse tão preguiçoso, diziam, seria a nossa primeira pena!".

— Bem podia ser que o demônio do homem entendesse deveras do riscado e viesse a prestar-lhe muito bons serviços!... Em tricas de política, pelo menos, ninguém lhe podia negar competência.

Borges ainda se lembrava perfeitamente das formidáveis discussões, em que o vira por inúmeras vezes empenhado com os grandes da matéria. — Ora, se assim era, valia a pena abrir mão de umas certas coisas e aceitar abertamente o auxílio que lhe oferecia o tipo!...

— O diabo seriam as despesas!

Borges já não era o mesmo algibeiras rotas em questões de dinheiro: depois das suas adversidades, ficara econômico e desconfiado. — Mas enfim! ora adeus!...

Quem precisa tem que puxar pela bolsa!

E resolveu agüentar a carga.

CAPÍTULO XIX

PETRÓPOLIS

Era ainda no tempo das pitorescas diligências, e Filomena, que nunca tinha ido a Petrópolis, ficou maravilhada com o passeio.

Principalmente a subida da serra, com a sua estrada muito branca, em ziguezague, que serpeia e se arrasta por sobre ela, à semelhança de uma cobra fantástica de marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.

Vales e montanhas, píncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte de seus olhos, banhado de tons cerúleos, num multicor ideal, vaporoso e fugitivo. As roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes de neblina, que se iam rasgando as primeiras irradiações do sol, como trêmulas cambraias sopradas pelo vento.

E pouco a pouco descortinavam-se as planícies afogadas num oceano compacto de verdura, e logo depois enormes penhascos debruçados sobre elas, como gigantes adormecidos de pé, e lá em baixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a baía entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando largos horizontes cor de pérola.

— Esplêndido! balbuciou Filomena , com a boca meio aberta, os olhos iluminados de inspirações, o seio ofegante, as narinas sôfregas e dilatadas. — Esplendido!

E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se de plano em plano, derramando-se até ao fundo misterioso dos vales ou voando aos alcantis que se perdiam no céu.

Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara tão poderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara tão fundo a alma apaixonada e contemplativa.

Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia com este os seus projetos políticos.

— Agora só o que me falta é a "idéia"! disse o barão ao ouvido do outro.

— Idéia? de quê? .. perguntou o Guterres, sem compreender. A idéia, homem, a Causa que eu tenha de abraçar, de defender! Sim! é preciso decidir-me por alguma!

O amigo olhou multo sério para ele:

— Tu ainda não tens partido?!

E depois de um gesto negativo do outro:

— Mas isso é ouro sobre azul! Não sabes a fortuna que possuís! O Imperador dá a vida pelos homens nessas condições!

— Achas, heim!...

(continua...)

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