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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ah! se me lembro , filha! Mas é que nem sempre a gente pode fazer o que deseja...Descansa, porém, que as coisa hão de endireitar e tu possuirás de novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de paciência...

— Já me tardava essa música! Já me tardava a “paciência”! A paciência inventou-se para consolar os tolos! Farte-se você com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero obras e não palavras!

Mendes não respondeu e continuou a trabalhar meneando a cabeça resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agitação e rangidos da cama e, daí a pouco levantou-se de um salto, gritando:

— Arre, com os diabos! Que nem se pode dormir!

— Olha os vizinhos, filha!...arriscou o marido. — Lembra-te de que são três horas da madrugada...

— Os vizinhos que se fomentem! Berrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos de granadeiro. — Não como em casa deles, não preciso deles para nada!

E, depois de ir beber um copo d’água ao fundo do quarto:

— Tinha graça! Que eu, além de tudo, não pudesse falar à minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que me amarrassem uma bala aos pés e mandassem, atirar comigo ao mar!

— Estás de mau humor, filha! Vê se descansas.

— Não é de espantar, levando a vida que eu levo! Sempre numas porcarias de quartos! Se precisa de qualquer coisa, é um “ai Jesus” Nunca há dinheiro! O almoço é aquilo que se sabe; o jantar pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, não há quem me traga um caldo! não há quem me dê um remédio! Arrenego de tal vidas, diabo!

— Ö Catarina!...disse o Mendes ressentindo-se — Pois eu não estou aqui?...Algum dia já me afastei de teu lado, ao te sentires incomodada?

— E antes se afastasse, creia! Porque já me custa a suportá-lo quando estou de saúde, quanto mais doente! Casca! — atirar-me em roto uns miseráveis serviços que qualquer um faria!...Pois não os faça!, que até é favor! Passo muito melhor sem eles!

— Está bom, senhora, está bom! Não precisa se arreliar! Veja se descansa, que eu agora tenho que fazer!

— Descansada queria você me ver, mas era no Caju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o demônio de alguma tola que caísse na asneira em que eu caí de se amarrar a um homem de sua laia? Um pingas! Que anda sempre com a sela na barriga!

E, avançando para o marido de olhos arregalados e um punho no ar:

— Mas, podes perder as esperanças, que eu não morro antes de ti, Mané Bocó! Primeiro hás de ir tu, entendeste?! — Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava pra aí, enquanto ficavas por cá a te lamberes de contente! — Um sebo! Hei de ir, sim, mas depois de te haver feito amargar também um bocado, meu burro velho!

— Ó mulher! cala essa boca do diabo! Gritou, afinal, o Mendes, arrojando a pena e empurrando os papéis que tinha defronte de si. — Arre! Ë muito! Arre!

O moço do n.° 7 expectorou com mais força e pôs-se a gemer.

Ora, com um milhão de demônios! Gritou o guarda-livros, morava no n.° 6 — Não é possível sossegar neste inferno! Quando não é a tosse e o gemido da direita, é a rezinga e a briga da esquerda! Apre! Antes morar num hospital de doidos!

Mendes levantou-se ,segurando a cabeça com uma das mãos, e começou a passear agitado pelo quarto .

Catarina continuava a serrazinar, atirando com os pés o que topava no meio das casa. O marido parou de súbito, sacudiu a cabeça, depois foi-se chegando para a mulher e correu-lhe a mão pela espádua nua e lustrosa, timidamente, como se afagasse anca de uma égua bravia

— Então, filha?...disse com ternura. — Vai deitar, vai!...Estamos aqui a incomodar os outros... Anda, vai!

— Os incomodados são os que se mudam! gritou ela.

— E é o que vou tratar de fazer amanhã mesmo! Berrou o guarda-livros. — Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa da noite para descansar! Arre!

— Não faça caso, senhor!...Disse o Mendes, e encaminhou-se para a porta.

Amâncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu pé ante pé, com ligeireza.

Nesse momento, o Campelo, o tal esquisitão do n.° 4, que até aí não dera sinal de si, levantou-se tranqüilamente, tomou o seu clarinete, e começou por acinte, a tirar do instrumento as notas mais estranhas e atormentadoras que se podem imaginar. O guarda-livros respondeu-lhe batendo com a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um doido, o Zé Pereira.

— Ai, meu Deus!, ai, meu Deus!, continuava a gemer arrastadamente o pobre sujeito do n.° 7.

Já pelas escadas, Amâncio ouviu as vozes do gentleman , do Melinho e de Lúcia, que acordaram espantados, e em gritos reclamavam contra semelhante abuso. No andar de baixo, o Piloto, o Dr. Tavares, o Fontes, e a mulher, abriam as portas dos competentes quartos, para indagar que diabo queria aquilo dizer. Só o dorminhoco do Pereira não se deu por achado.

Amâncio já estava enter os lençóis, quando o Coqueiro percorreu toda a casa, de robe-de-chambre e um castiçal na mão.

CAPÍTULO XI

(continua...)

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