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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Apesar das recomendações do tutor de Aurélia, Seixas tinha pela manhã enviado uma secretária em cujas gavetas inferiores acomodara a melhor roupa de seu uso, branca e exterior. 

Procurou esse traste e achando-o em quarto próximo onde o tinham colocado, verificou-se com efeito ali estava a roupa; e teve ao achá-la grande satisfação. Tirou de si o rico chambre de seda, as chinelas de veludo; e vestiu-se com um traje mais modesto, dos que trouxera. 

Na secretária havia charutos. Acendeu um e sentou-se à janela. Sentiu-se com forças de encarar a situação a que fora arrastado, e a crise em que se achava sua existência. 

No meio das reflexões acerbas que lhe despertara a recordação da cena recente, das revoltas por muito tempo contidas de sua dignidade contra o orgulho da mulher que o humilhava, flutuava um sentimento que afinal desprendeu-se do turbilhão de seus pensamentos e o dominou. 

Esse sentimento era a intensa admiração que lhe inspirava a energia e veemência do amor de Aurélia. Havia nessa paixão que o acabava de insultar, uma beleza fera, que incutia-lhe entusiasmo cheio de espanto. 

- Não compreendi esse amor... E como podia eu compreendê-lo?... Se alguém me referisse o que se acaba de passar comigo, eu receberia semelhante conto com um sorriso de incredulidade. Que outrora, quando minha família seqüestrava a mulher da sociedade, a paixão subisse a esse auge, e absorvesse uma existência inteira... Então não havia tempo de amar-se mais de uma vez, e o amor deixava a alma exausta. Mas atualmente que a mulher vive cercada de adoradores, e que todas as distinções se ajoelham ante sua beleza, o amor não é mais do que um capricho, uma doce preferência, um terno devaneio, até que se transforme na amizade conjugal. Assim o imaginei sempre, assim o senti e me foi retribuído. Quando Aurélia me falava da sua afeição, estava bem longe de pensar que ela nutrisse uma paixão capaz de tais ímpetos. Pensava que eram romantismos. Não os tinha eu também? Não jurei tantas vezes um amor eterno, que no dia seguinte desfolhava no turbilhão da valsa? Esse amor que supunha uma ilusão de poeta, um sonho da imaginação, aí está em sua realidade esplêndida. Suas asas de fogo roçaram por minha alma e a crestaram para sempre!... 

Seixas ficou um momento como extático ante a imagem que se lhe debuxava no pensamento representando a figura de Aurélia, quando, soberba de cólera e indignação, o cobria de acerbas exprobrações. 

- Uma paixão como a sua tinha direito de ser implacável!... E essa mulher que se deu a mim com a mais sublime abnegação, essa mulher a quem a sorte ligou-me eternamente, essa mulher única, eu a admiro, e não posso amá-la nunca mais! Encontrei-a em meu caminho, e perdi-a para sempre! Também não amarei outra. Depois de a ter conhecido, não profanarei minha alma com a afeição de mulher alguma. 

Os arrebóia da manhã já se arraiavam no horizonte. Uma brisa mais frasca derramava-se no espaço, e os primeiros atitos das aves misturavam-se com os rumores confusos da cidade, que ia acordando por detrás dos muros da chácara. 

Seixas desceu ao jardim e percorreu os passeios sinuosos do prado artificial coberto de fina grama, e recortado à inglesa. Os tabuleiros de margaridas e boninas, abertas ao primeiro raio de sol, recamavam com suas coroas matizadas a verde alcatifa de relva. Fúcsias e begônias lastravam pelas grades das latadas compondo graciosos bambolins como os tirsos de flores caprichosas. 

Os botões das camélias e magnólias cheios de seiva haurida com a frescura da noite, esperavam o calor do dia para desabrochar, enquanto as flores da véspera que tinham cerrado o seio à tarde, abriam-no de novo, mas pálido e langue, para despedir-se do sol, que lhes tinha dado a vida, e a crestara, como o caprichoso artista. 

Seixas, como homem de sociedade que era, conhecia a natureza de tradição apenas, ou quando muito de vista. As árvores, as flores, as perspectivas, eram para ele ornatos, que se confundiam com os tapetes, cortinas, trastes, dourados e toda a casta de adereços inventados pelo luxo. 

A força de viverem em um mundo de convenção, esses homens de sociedade tornaram-se artificiais. A natureza para eles não é a verdadeira, mas essa fictícia, que o hábito lhes embutiu, e que alguns trazem do berço, pois aí os espera a moda para fazer neles presa, transformando-lhes a mãe, em uma simples produtora de filhos. 

(continua...)

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