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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— E Teresa! — bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo. — E aquela infeliz menina que eu matei! Não hei de vê-la mais, nunca mais! Ninguém me levará ao degredo a noticia de sua morte! E, quando a eu chamar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir?!

A 17 de março de 1807, saiu dos cárceres da Relação Simão Antônio Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco companheiros. O filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiça, não ia amarrado com cordas ao braço de algum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Mariana, que vigiava os caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueira. pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.

— É demente o senhor Simão?! — disse o desembargador.

— Tenho a demência da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi; quero agora ver a que extremo de infortúnio ela pode levar os seus amantes. A caridade só me não humilha quando parte do coração e não do dever. Não conheço a pessoa que me remeteu esse dinheiro.

— É sua mãe — tornou Mosqueira.

— Não tenho mãe. Quer vossa excelência remeter-lhe esta esmola rejeitada?

— Não, senhor.

— Então, senhor comandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto ao rio.

O Comandante aceitou o dinheiro, e o desembargador saiu de bordo como espantado da sinistra condição do moço.

— Onde é Monchique? — perguntou Simão a Mariana.

— É acolá, senhor Simão — respondeu. indicando-lhe o mosteiro, que se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia.

Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um vulto.

Era Teresa.

Na véspera recebera ela o adeus de Simão, e respondera enviando-lhe a trança dos seus cabelos.

Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foi amparada à sua criada, Parte das horas da noite passouas sentada ao pé do santuário de sua tia, que toda a noite orou, Algumas vezes pediu que a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo por seu pé às celas das senhoras entrevadas para lhes dar o beijo da despedida.

Todas cuidavam em reanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios com que as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir da manhã, Teresa leu uma a uma a cartas de Simão Botelho. As que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas lágrimas. Eram hinos à felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode dar o coração humano quando a poesia da paixão dá cor ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes, Então lhe acudiam vivas reminiscências daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas, esperanças a desvaneceram saudades, os mudos colóquios com a irmã querida de Simão, o céu aromático que se lhe alargava à inspiração sôfrega de vagos desejos, tudo, enfim, que lembra a desgraçados.

Emaçou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos de flores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janela ao quarto dela.

As pétalas das flores soltas quase todas se desfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: — "Como a minha vida..." — e chorou, beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebeu.

Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito delas, que logo veremos cumprida.

Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quase tirada pela violência, aceitou uma xícara de caldo, e murmurou com um sorriso: — "Para a viagem..." -

As nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante, e, sentando-se em ânsias mortais, nunca mais desfitou os olhos da nau, que já estava verga alta, esperando a leva dos degredados.

Quando viu, a dois a dois, entrarem, amarrados, no tombadilho, os condenados, Teresa teve um breve acidente, em que a já frouxa claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos conclusas pareciam querer aferrar a luz fugitiva.

Foi então que Simão Botelho a viu.

E ao mesmo tempo atracou à nau um bote em que vinha a pobre de Viseu, chamando Simão. Foi ele ao portaló, e, estendendo o braço à mendiga, recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a primeira não era sua, pela lisura do papel, mas não a abriu.

(continua...)

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