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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Não cabe nos estreitos limites desta revista citar todas as decisões da liga; mas os leitores podem encontrá-las no Diário Oficial, que é jornal de leitura amena. Careta, Rio, 25-10-1919.

LINHAS DE TIRO

Os atiradores da cidade do Salvador, capital da Bahia, segundo se lê nos jornais, resolveram levar a efeito, nos arredores daquela capital, um combate simulado, no qual tomaram parte os tiros 86, 284, e 571.

O combate realizou-se em um dos últimos domingos; e, continua o jornal, “tão animados, tão senhores dos seus respectivos papéis se mostraram os jovens soldados, que muitos deles, ou quase todos, terminada a prova, a que de bom grado se submeteram, estavam realmente feridos, machucados, ensanguentados, como se tivessem tomado parte numa luta de verdade, e com inimigos perigosíssimos”.

Causou-me pasmo semelhante novidade. Até agora, eu estava convencido de que as linhas de tiro eram a coisa mais inofensiva deste mundo, mesmo mais do que os batalhões escolares e os pelotões de escoteiros, compostos de meninos que ainda têm saudades da mamadeira...

Quando vi o doutor Calmon, todo fardadinho de atirador, muito pimpão na avenida, disse cá com os meus botões: isto deve ser uma moda nova de vestuário masculino; não pode ser outra coisa.

Houve uma parada no campo de São Cristovão; o batalhão do doutor Calmon formou. Ele lá estava na fila. Bem. Logo que o presidente passou revista, o bravo doutor Calmon saiu de forma e embarcou na sua limousine de muitos contos de réis, com espingarda e tudo.

Se a guerra tivesse que contar uns três guerreiros como esse, de há muito que a paz pairaria sobre o mundo...

Outro guerreiro de tiro que dava mais força a essa convicção minha, era o garboso doutor Denis Júnior.

Quando o vi, na avenida, fardado de alferes de tiro, com um espadim que mais parecia um porrete que mesmo uma durindana belicosa, refleti de mim para mim: temos uma nova encarnação da guarda nacional; isto de atiradores de guerra vem a ser, nada mais, nada menos, que um avatar de “briosa”. Ainda mais.

Na data do descobrimento da América, o Tiro da Imprensa fez uma festa, no Campo de Santana, a que compareceu o marcial Kalogheras, ministro da Guerra.

Pensam os senhores que houve evoluções, manobras? Qual o que! O que houve, foram discursos. Houve sete, meus senhores, dos quais dois não foram pronunciados no campo, mas no quartel-general. Só o meu amigo Heitor Beltrão207, presidente do tiro, proferiu dois.

Por estas e outras, eu tinha as linhas de tiro como a coisa mais inocente deste mundo. Agora, porém, com o exemplo baiano, não penso mais assim.

As linhas de tiro, se não são adequadas a guerras externas, são muito próprias para a guerra civil, como ficou demonstrado na Bahia.

Ainda bem que elas revelam possuir algum préstimo belicoso... Careta, Rio, 1-11-1919.

VERDADEIRO EXPOENTE

Vai o senhor Fausto Ferraz ser despachado representante dos nossos operários no Congresso Trabalhista de Washington.

A nomeação é acertada; não há dúvida alguma.

O senhor Fausto é dos oradores notáveis da Câmara, o mais perfeito carpinteiro como todos sabem; quando não é ferreiro e dá para malhar na bigorna dos ouvidos alheios, alguns períodos patrióticos, líricos e sentimentais de outros tempos.

Há muito que sua senhoria não aparece na tribuna da Câmara. Logo que o facundo parlamentar tomou assento no Congresso Nacional, não havia dia em que ele não dissesse alguma coisa de oportuno e entusiástico, com a sua oratória magnífica em Silvestre Ferraz ou Maria da Fé.

As suas preocupações eram, então, atinentes à pecuária, por isso mesmo sua senhoria estava a calhar para representar operários em assembléia especial que tem por fim discutir medidas de puro interesse dos artífices.

Depois, o senhor Fausto Ferraz quis se fazer conferencista e guinchou a Hora Industrial. Por esse tempo, supomos, o exímio deputado aprendeu ofício.

Uns dizem, como já foi notado aqui, que se iniciou na carpintaria e fez-se notável orador; outros, porém, falam que foi o de ferreiro, ficando ainda mais notável orador do que era.

Seja ferreiro, carpinteiro, pedreiro, laminador, tipógrafos, calafate, cozinheiro, forneiro, oleiro, foguista ajustador, modelador, funileiro, fundidor, soldador, bombeiro, eletricista, relojoeiro, tipógrafo, impressor, sapateiro, linotipista; seja o e for, o certo é que o senhor Fausto Ferraz é um exímio parlamentar orador de moldes de um raro sabor antigo, que muito trabalhará na Conferência Trabalhista de Washington, falando pelas tripas de Judas.

É de esperar que tal se dê, porquanto sua senhoria tem descansado muito este ano, não tendo discursado nem trinta vezes e só apresentando à consideração dos seus pares a ninharia de oitenta e cinco projetos.

(continua...)

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