Por Aluísio Azevedo (1884)
E quando afinal, pela manhã, ganhava a cama, moído e prostrado, lá estava a mulher para perguntar-lhe pela "idéia", para perguntar-lhe como iam "as suas ambições políticas". Se o Borges havia já deliberado alguma coisa a esse respeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. — que fizera, afinal, depois que estavam na corte.
— Matar-me! É o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansaço. — Esta vida dá-me cabo da pele! Não sirvo para isto!... Como queres tu que eu pense, que eu escreva, se não tenho um momento de repouso, se todas as minhas horas são poucas para o tal teatro?!
— Entretanto, é mister que te resolvas a principiar!... Não podes de forma alguma permanecer no estado em que te achas!...
— Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. — Hei de dar um jeito...
— Tenho uma idéia! exclamou a mulher de uma dessas vezes — tenho uma excelente idéia! — Está a chegar o verão; iremos passá-lo em Petrópolis e, durante esse tempo de completo repouso, tu farás o que já combinamos. Hein? que tal te parece?
— Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a idéia daquele descanso. — Irei para Petrópolis, irei de muito boa vontade, mas hás de afiançar primeiro que não voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo nem sequer pensaremos em teatro!
— Podes ficar descansado! prometeu a mulher.
O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que, à chegada do Borges, o procurou.
Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas — que recebera do amigo.
E, desde essa visita, não lhe deixou mais a casa. Jantava lá quase todos os dias e à noite era infalível no teatro.
Borges apenas conseguiu suportá-lo, mas Filomena tinha-o em certa estima. Guterres não se cansava de elogiá-la; ao lado dela só falava nos sucessos extraordinários que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa experimentava certo gostinho em sentir a seus pés aquele constante incensador, aquele louvaminheiro incansável, que a glorificava sempre no mesmo diapasão, como uma caixa de música que não precisasse de corda, mas que só tivesse uma peça.
Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar lá a seu modo, fazia-se muito solícito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele. Passava os dias no teatro, querendo ajudá-lo em tudo e não fazendo coisa alguma; assentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e a despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os músicos, tomando contas às costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios, apaixonando-se nas discussões a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo desculpas aos espectadores que porventura ficavam mal acomodados na platéia, e indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria o negócio.
Quem o visse ali, tão inquieto, tão empenhado, tão comprometido com aquele serviço, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.
Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre: "O João, o nosso amigo João". Mas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito, como para justificar aquela amizade: "O Barão de Itassú"!
Borges no fim de contas já não o achava tão ruim, e aos poucos o ia admitindo nos seus particulares. Um dia de mais expansão, chegou a falar-lhe muito em segredo, nos projetos políticos, que ultimamente o preocupavam.
— Não é coisa minha! disse, justificando-se. — São histórias lá de minha mulher! Deu-lhe p'r'aí. Acha que devo meter-me na política!...
O outro recebeu a notícia com um acolhimento cheio de assombro.
— E por que não?!
— Achas então que a coisa é exeqüível? perguntou o Borges.
— Mas certamente! Dessa massa é que eles se fazem! Nas condições em que estás e dispondo da influência de tua mulher, seria um crime até não cuidares do futuro! O]há...
E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: — Eu estou aqui para te ajudar' Depressa!
Mas o Borges não podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe muito pouca confiança, continuava a ver nele o mesmo preguiçoso vulgar, o mesmo "pobre diabo", o mesmo parasita incorrigível.
— Então é certo que vais para Petrópolis?... perguntou-lhe o amigo na véspera da viagem...
— É, respondeu o marido de Filomena; — sigo amanhã.
— Diabo, antes fosses mais tarde! não me convinha sair daqui sem acabar o mês...
— Mas que necessidade tens tu de sair?... ponderou o Borges, temendo que o outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.
— Pois eu havia lá de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!...
— Não, não! não te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges. Agradeço-te do fundo do coração a boa vontade; mas acredita que não há a menor necessidade de...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.