Por Aluísio Azevedo (1884)
— Dormia! Pensou o estudante. — Dormia, sem preocupações nem cuidados; ao passo que ele, por não encontrar descanso, errava pelos corredores desertos, como uma alma penada!. — Para que então se lembrara aquela mulher de ir mexer com ele?!... Se a sua intenção era dormir, para que o foi provocar? Para que lhe foi bulir com o sangue? Oh! Aquele silêncio do n.° 8 o irritava! Aquela indiferença afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor-próprio, um atentado contra o seu orgulho
E, quanto mais se convencia da impossibilidade de falar essa noite a Lúcia, mais e mais os seus sentidos se assanhavam! Afinal, já não fazia grande questão de ser com ela própria; aceitaria qualquer outra que o arrancasse daquela ansiedade em que se via entalado, como se estivesse dentro de uma armadura em brasa.
— Que inferno! Dizia ele consigo, rangendo os dentes. — Que inferno!
E, sem ânimo de ir embora, permanecia encostado à porta do n.° 8, deixando –se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo; ao passo que o corpo inteiro arfava com o resfolegar aflitivo dos pulmões.
— Todavia, pensou ele - quantas mulheres não o desejariam Ter junto de si naquele momento?...Donzelas até, quantas, naquele instante, não se estorceriam no leito e não morderiam os travesseiros, desvairadas pela isolação?
E saborosas lembranças de amores extintos, que o tempo e a ausência tornavam, mais perfeitos e mais desejáveis, acudiam-lhe simultaneamente ao espírito, para lhe aumentar as torturas da carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes e formosas; em todas elas não havia um lábio sem sorriso, um olhar sem fogo; era tudo opulento de graças e de meiguices, era tudo encantador e completo
Pôs-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em segredo o nome de Lúcia. Nada, porém respondia; o mesmo silêncio compacto enchia as trevas do corredor.
Seu desejo, estimulado e tonto, evocava então todos os meios de saciar-se; descobria hipóteses absurdas, inventava possibilidades que não existiam. Amâncio chegou a pensar em Amélia, em Mme. Brizard, na mucama, e até, que horror! Em
Nini!.
— Ai , meu Deus, gemeu nesse instante o doente do n. ° 7.
O estudante deixou a porta de Lúcia e segui em ponta de pés pelo corredor. Ao passar defronte do quarto do Paula Mendes, suspendeu o passo; a luz continuava com a mesma intensidade; o curioso não resistiu a uma tentação e espiou pela fechadura.
O pobre homem trabalhava, vergado sobre ma mesinha estreita e todas coberta de papéis de música. Ao lado, pelas cadeiras e sobre um sofá de couro negro encostado a um biombo havia folhas esparsas e cadernetas empilhadas.
Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia, que tinha de ser executada daí a quatro dias em uma festa fora da cidade. O Imperador prometeu que iria.
Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouviam-se o ranger da pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de um despertador de metal branco, pousado sobre a cômoda, e o grosso ressonar da mulher, que dormia por detrás do biombo. O rabequista parecia menos triste naquela ocasião do que nas outras em que o vira Amâncio.
É porque a mulher está dormindo, calculou este, lembrando-se do mal gênio de Catarina. E considerou sobre a existência ordinária que levariam ali, encurraladas no mesmo cubículo, aquelas criaturas tão opostas.
O Mendes, sem desprender a pena do papel, começou a solfejar em voz baixa o que escrevia; mas, como lá dentro cessaram os roncos da mulher e esta remexeu na cama, resmungando, ele incontinente calou a boca e prosseguiu em silêncio no seu trabalho.
— Ainda estás com isto?! Perguntou ela, afinal, depois de uma pausa.
O marido respondeu afirmativamente.
— Pois, homem, vê se acabas com essa porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto, não posso pregar olho!
E, fazendo ranger as tábuas da cama, virou-se de um lado para outro; acrescentando com a sua voz de homem:
— Deixa isso! Anda! E apaga o diabo dessa luz!
— Não , filha, respondeu o artista brandamente. – É preciso que este serviço fique pronto amanhã...
E, depois de um muxoxo da mulher:
— Sabes o quanto precisamos deste dinheiro...A diretora do colégio ainda ontem protestou que despediria a pequena, se seu não lhe arranjasse alguma coisas por conta do que devemos; o Joãozinho, coitado, há quase dois meses pediu-me que lhe levasse um sobretudo, porque lá no trapiche onde ele agora está trabalhando, faz pela manhã um frio de rachar; Mme Brizard, você não ignora, temnos apoquentado e...
— Ë isto! interrompeu a mulher. — Ë sempre a mesma cantiga! — De tudo você se lembra, menos do que eu preciso!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.