Por Camilo Castelo Branco (1882)
Os dois lavradores das éguas travadas deram de calcanhares e pareciam dois duendes de comédia mágica vistos à luz crespuscular. O caseiro abandonou as sogas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada fuga até Famalicão, e à entrada da vila gritou – aqui d'el-rei ladrões! Contou o sucesso ao povo alvorotado, acudiu a autoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Simeão e da malta dos ladrões. Acharam-no prostrado, de costas, arquejando, com a cara empastada de sangue que borbotava empoçando-se dos dois lados da cabeça. A égua rilhava entre os dentes e o freio umas vergônteas tenras de tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhais enfolipados. O Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabeça do ferido, e disse que tinha o miolo à vista; não podia durar muito, que lhe dessem a santa unção. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais próximo e levaram-no para Prazins prometendo duas de doze a dois jornaleiros. O caseiro montou a égua para ir a Santo Tirso chamar o Baptista, o cirurgião da casa; mas a burra, estranhando as esporas dos tamancos, levantou-se com o cavaleiro, deixou-se cair sobre os jarretes traseiros, voltou-se de lado como quem se ajeita para dormir: foi necessário levantá-la. O povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre da égua a perna entalada, muito cabeluda; e ali perto estava a padiola com um velho gemente, agonizante, a pedir a confissão. Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso à Marta que o pai estava a morrer com pancadas que lhe deram os ladrões de estrada. D. Teresa e o prior acompanharam-na. Quando chegaram, saía o pároco de o confessar e tocava o sino ao viático. Havia uma agitação de angustiosa curiosidade no povo que confluía à igreja chamado pelo sinal. Dizia-se que eram ladrões que saíram ao lavrador em Santiago de Antas; havia opiniões mais individualistas: segredava-se o nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada para as Lamelas o Patarro de Monte Córdova e mais outro mal-encarado; mas todos à uma diziam que não tinham visto nada, nem queriam saber de desgraças, com medo à malta do Zeferino.
O Simeão estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre a cama, resfolegando com muita ansiedade, gemendo com dores, e a cabeça um pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em três pelo vigário. Esperava-se o cirurgião. A filha teve um desmaio quando viu a cara ensanguentada do pai, à luz mortiça de uma vela de sebo numa placa de lata. D. Teresa, com a Marta nos braços, disse ao irmão:
– Que miséria de casa! Pede luzes e água para se lavar aquele sangue.
E, assim que Marta voltou a si, levou-a para o seu quarto – que a viria chamar quando o pai a pudesse ver. Queria retirá-la do espectáculo dos paroxismos.
Quando chegou a extrema-unção com o préstito clamoroso do Bendito e o tilintar espacejado da campainha, Marta carpia-se em altos gritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.
Ela tinha ouvido dizer a uma das vizinhas que lhe invadiram a alcova: – quem lhe bateu, ó mulheres, não foi outro senão o Zeferino das Lamelas. Juro que não foi outro. – Esta afirmativa cravou-lhe no coração o remorso de ser ela a causa da morte do pai. Queda ir pedir-lhe perdão; rogava à sua amiga que pelas chagas de Cristo a deixasse ir ajoelhar-se à beira de seu desgraçado pai. D. Teresa conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se fizesse o curativo; que o cirurgião não queria no quarto senão o barbeiro que lhe estava a rapar a cabeça.
Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo às obras. Vinha aterrado. Disse ao Osório que já estava arrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando de facínoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde a sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse de conta que tinha em seu tio um segundo pai.
O cirurgião saiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara um pedaço de tegumento, deixando descoberto o crânio, que o ferrador da Terra Negra chamara o miolo. A hemorragia era grande, e havia receio de comoção cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe pôr panos molhados na cabeça, de quarto em quarto de hora. Marta e Teresa não abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Osório passou a noite na saleta atendendo o brasileiro que lhe falava muito na sobrinha, na paixão que ela tivera pelo José Dias, e não lho levava a mal, pelo contrário.
Aí pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos, dizia disparates; queria arrancar os pachos da cabeça, bracejava, e puxava para o peito a face da filha lavada em lágrimas. O padre acudiu e mais o Feliciano; receavam que ele estivesse agonizando. Depois aquela agitação esmoreceu num dormitar sobressaltado, com a cabeça no regaço de Marta, que brandamente lhe compunha o pacho da ferida. Quando espertou da modorra conheceu a filha, e repeliu-a. Falou no pedreiro que o matara, e recaiu no estado comatoso. O padre Osório atribuía aquela sonolência a derramamento de sangue no crânio, um sintoma de morte provável. O cirurgião veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguessugas atrás das orelhas, e disse ao vigário de Caldelas que estava mal-encarado o negócio; que aquele diabo de sono lhe parecia de mau agouro. Que ia ver uns doentes e voltava logo.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.