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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Para encurtar razões: a presunção do Cavalcanti, mais do que a sua burrice, achou meios e modos de arranjar por quatro votos contra três a condenação do pobrediabo a dezesseis anos de prisão. Uma iniquidade!

Nunca mais troquei um cumprimento com tão perverso idiota em quem a vaidade só fazia praticar o mal.

Um outro caso, mas este cômico, se deu quando eu presidia o conselho de sentença, por unânime escolha dos companheiros. Era juiz o meu amigo doutor Cardoso de Melo; mas, por aqueles tempos, não mantínhamos ainda as estreitas relações que hoje mantemos.

A mania do jurado novo é jantar à custa do governo; e, naquele conselho, quase todos eram marinheiros de primeira viagem. Exceto eu e um outro, os cinco restantes tomavam parte em conselho pela primeira vez.

Os debates, com grande aborrecimento meu, se prolongaram até perto das seis horas da tarde.

Quando fomos para a sala secreta, um dos jurados, R., oficial da Secretaria do Interior, observou lamurientamente:

– É o diabo! A mulher pensa que janto na cidade e não guarda coisa alguma.

Pensei de mim para mim:

– Este cacete quer jantar; e eu que estou sem passagem de trem? Se ele insiste, demoro-me e não sei como arranjá-la.

Não disse nada; mas um outro senhor, S., da Prefeitura Municipal, fez logo com afoiteza:

– É melhor pedir jantar... Quando chegarmos em casa, se houver alguma coisa de comer, estará frio ...

– É ... É ... O melhor é pedir jantar ao juiz.

Quis objectar alguma coisa; mas todos queriam o jantar; e não tive remédio senão pedir ao doutor Cardoso.

Veio ele e eu na cabeceira da mesa, só me servi de um prato de sopa e do vinho que poucos tomaram, por isso, no decorrer do jantar, bebi mais de uma garrafa, quando me cabia unicamente meia.

Fazia parte do menu, peixe ensopado à brasileira e pirão, que vieram juntos numa grande salva de metal branco, provocando, logo que surgiu no jantar, nas mãos do contínuo ou servente, inequívocas manifestações de gula nos meus companheiros. Naturalmente, pelo entusiasmo saboroso por ele, que demonstravam, não comiam há muito tempo aquilo...

Acabada a mesa, eles se serviram à vontade e com abundância do peixe; eu, porém, não quis. Estava mesmo apreensivo, doido para sair e arranjar a passagem. Puseram-se a comer o apetecido prato e eu a beber o vinho, conversando.

Num dado momento, S., o tal jurado da prefeitura, cruzou o talher e gritou:

– Encontrei uma barata.

Os outros não disseram nada, cruzaram os seus talheres; mas R., o da Secretaria do Interior, observou bonacheironamente:

– É, mas está muito bom!

E continuou a comer filosoficamente.

O Estado, Niterói, 25-10-1919.

LIGA DE DEFESA NACIONAL

Os jornais não têm noticiado convenientemente as decisões dessa importante associação que vem prestando ao país os mais extraordinários serviços.

E uma lástima que a ligeireza da nossa imprensa assim proceda, porquanto o público brasileiro devia estar sempre informado dos seus atos, para apoiar moral e materialmente tão útil sociedade.

É mesmo do nosso temperamento não dar importância às coisas sérias, antes preocuparmo-nos com toleimas e futilidades.

Os jornais enchem páginas e páginas sobre coisas de “almofadinhas” e

“transparentes”, mas repelem tudo o que interessa os destinos da nacionalidade.

Um crime vale mais do que um apelo à Nação para que se una em prol de sua grandeza.

Não é o criminoso que ganha com o crime; são os jornais. Os delinquentes se fizeram assim, para uso e gozo das folhas volantes.

Não nos move contra elas nenhuma espécie de animosidade; mas registramos um fato unicamente.

Tudo isso veio a propósito do fato lamentável de não terem os grandes diários desta capital publicado as últimas resoluções da Liga de Defesa Nacional, votadas em sessão de diretoria.

Ficou estabelecido nessa memorável sessão que se fortificasse a margem brasileira do Oiapoque, a linha de cumiada das serras de Tumucumaque, Acaraí e Paracaima, a fim de evitar as incursões dos franceses da sua Guiana no nosso território.

Aprovada sem debate tão importante resolução, foi votada a verba de um maciço discurso do senhor Coelho Neto, para custear a construção dos fortes, fortins e fortalezas indispensáveis.

Não se pode negar que a liga procedeu patrioticamente e que os fundos votados são consideráveis.

Outra resolução importante foi a de melhorar a situação de nossas forças na fronteira de Mato Grosso com o Paraguai.

Toda a gente sabe em que estado lamentável está tudo aquilo, quanto a quartéis, cavalhada, etc., etc.

Pois bem: a liga destinou a verba de uma versalhada do senhor Leôncio

Correia , para que tão triste estado de coisas acabasse de vez.

(continua...)

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