Por Aluísio Azevedo (1882)
E nessa hora, transitória, e dúbia, que nos é dado surpreender a natureza nos segredos do seu amor; é entre o último sorriso do sol e a primeira lágrima da noite, que podemos penetrar no fundo do coração de nossa mãe comum! Ela como que abre para chorar à vontade, e sente-se então o orvalho do seu pranto, e ouvemse os seus gemidos abafados.
Gregório deixava-se arrebatar por estes devaneios, quando contemplou o vulto melancólico, que subia lentamente a escadaria de pedra pelo braço do velho; e desde então aquela triste figura de mulher não lhe saiu mais da memória.
CAPÍTULO XVI
OLÍMPIA
Uma semana depois, Gregório havia já travado relações com os dois novos hóspedes e possuía alguns esclarecimentos a respeito deles, se bem que o velho, isto é, o comendador Ferreira, por índole natural se mostrasse com todos muito reservado.
A senhora que o acompanhava era sua filha; chamava-se Olímpia e vivia, havia já quatro anos, separada do marido, aquele mesmo sujeito, caixa da casa Paulo Cordeiro, que vimos queixar-se na secretaria de polícia, ao delegado Benevides, do roubo que acabava de sofrer o referido estabelecimento. Foi esse sujeito quem chamou sobre Gregório a atenção das autoridades policiais.
Olímpia era um espiritozinho muito caprichoso. Educada sentimentalmente, nunca chegara a compreender a vida positiva que lhe oferecia o marido e nunca se identificava com os interesses deste e com o seu caráter prático. Daí nasceu a separação. Mas o pai, a quem não faltavam recursos e que seria capaz de tudo sacrificar por amor da filha, não hesitou em recebê-la nos braços e fazer dela toda a preocupação e todo o encanto da sua velhice.
O pior porém é que, depois da separação, Olímpia principiou a padecer extraordinariamente dos nervos. Dentro de seis meses logo se lhe operou grande mudança em todo o corpo; ficou muito mais magra, mais pálida e mais apreensiva; e afinal caiu em tal abatimento, que o velho teve sérios receios de perdê-la. Ela já não ria, já não gostava como dantes de conversar com as amigas, já não pulava de contentamento quando lhe traziam o camarote do lírico ou algum novo romance do Alencar, e nem mais pensava em danças e modas. Seu piano adormeceu abandonado a um canto do salão, e ninguém mais lhe ouviu uma daquelas romanças de que a sua bela voz tirava tanto partido.
As amigas de má língua, quando souberam do seu rompimento com o marido, bradaram logo que tal fato era de esperar, e profetizaram que Olímpia principiaria, depois disso, a cultivar abertamente a sua paixão pelo luxo e pela opulência. Pois saiu tudo ao contrário; desde a desunião do casal, o vulto encantador da festejada senhora desertou, por uma vez, dos salões do Cassino e dos grupos aristocráticos das suas relações. Ninguém mais aprendeu com ela a pôr ou tirar uma capa, a trazer um novo chapéu, a escolher uma flor, a combinar duas cores num vestido ou a servir uma chávena de chá.
— Estará apaixonada pelo marido?... perguntava-se à boca pequena. E esta pergunta provocava as mais desencontradas respostas. Uns admitiam perfeitamente tal esquisitice, considerando o gênio caprichoso de Olímpia; outros negavam, lembrando o tipo vulgar e peco do marido; alguns falavam de uma paixão romântica, que teria justamente sido a causa do divórcio; outros afirmavam que a impostora só desejava armar ao efeito e chamar sobre si a atenção de todos. E assim se inventaram mil romances, predominando sempre a singular hipótese de que Olímpia estivesse deveras apaixonada pelo esposo. Mas desnortearam logo, quando souberam por fonte limpa, que este acabava de propor à mulher uma boa reconciliação e que tal proposta fora prontamente rejeitada. A verdade é que ela não mais apareceu em nenhuma festa, e nunca mais mandou iluminar a sala nas quintas-feiras, que era o seu dia de recepção. E como se ainda não bastasse tudo isso e receasse que as antigas amizades a fossem importunar no seu isolamento, exigiu do pai que a tirasse de Botafogo para um lugar modesto e sem vizinhos.
O comendador Ferreira recuou assombrado.
— O quê, minha filha?! perguntou ele muito comovido. Que caprichos são esses? pois já não chega a reclusão em que vives?... Tu, tão moça, tão bela, tão querida da sociedade, queres enterrar-te, em um lugar obscuro, ignorado... Para quê e por quê?! Não tens vergonha que te impeçam de aparecer publicamente!... não tens desgostos que te privem de gozar!...
E o velho, depois de passear muito agitado, acrescentou:
— Não! isso lá, tem paciência, não se há de fazer! Ir para um lugarzinho modesto!... que idéia!... Antes entrar logo para um convento!
— Quem sabe mesmo se não seria melhor!... disse Olímpia, com os olhos cravados no ar.
— Melhor o quê, minha filha?... Não quero que te mortifiques dessa forma! Fala-me antes com franqueza; abre esse coração a teu pai, dize-me o que sofres! se te falta alguma coisa, confessa-me tudo! Sabes quanto te amo; sabes que tu és toda a minha vida, toda a minha felicidade! Não vês que estou comovido?... não vês que tu me matas com essa tua mágoa fechada e egoísta?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.