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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— É. Deus louvado não tenho de que me queixar!... sustentou o Barroso. Sou feliz, não nego! Coube-me por sorte uma esposa que é um anjo, um verdadeiro anjo de bondade! Também, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda... tratoa como vosmecê não imagina!

— Mas faço uma idéia! faço uma idéia!... respondeu o Guterres, cheio de acordo.

E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:

— Ora, diga-me cá uma coisa, seu Barroso; tire-me de uma dúvida: — Quem vem a ser esta Filomena Borges?... Dir-se-ia a mulher do João Touro!...

— Pelo menos, o nome é o mesmo e foi justamente essa dúvida o que me trouxe por cá!

— O nome e o título! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de Itassu. Afianço-lhe, porque vi!

— Então não é outra com certeza! disse o Barroso — e se duvido, quero que me rachem de meio a meio!

— Ora o diabo!

— Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia de caprichos e de fantasias!

— Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante um espalhafato desta ordem?... Isto até faz desconfiar!

— Pois então você não sabe que o Borges sempre foi um barão pela mulher?... Ela faz dele o que bem entende!

— Sim, mas segundo me consta, o João Touro não saiu lá muito recheado aqui do Rio!... considerou o Guterres.

— Recheado saiu ele, mas foi de dívidas!... — E então?...

O Barroso Ia responder, mas Interrompeu-se:

— Olhe! Aí chegam eles! São os mesmos — é a Filomena e o pancada do marido!

— Ora, para que havia de dar aquele maluco!... exclamou Guterres, considerando o casal que o outro lhe mostrava.

— E como vêm tão esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!

Filomena, com efeito, vinha tão a européia pelo braço do marido, que não parecia a mesma.

E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!

A quantidade de curiosos que os cercavam era tão grande, que os dois mal podiam caminhar.

Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou àquele auge. As ruas, por onde seguia a desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam. De todos os lados, choviam versos; duas sociedades filarmônicas acudiram com a pancadaria de sua música. Um verdadeiro delírio!

Começaram a surgir as ovações.

Do dia seguinte à chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo de mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos os sentidos. Os apaixonados calam-lhe em redor aos bandos, como pássaros prostrados pelo calor.

E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada além de vagas esperanças, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos e de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.

Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno para a concorrência que havia. As senhas atingiram o valor de jóias. Viam-se casacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, não pela arte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela originalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente com os requebros dos tangos e das modinhas.

— Não há francesa! Não há nada que se compare a isto!... dizia-se.

Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de uma comissão diplomática, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espetáculo, por quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de sândalo, incrustada de ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de papel de arroz, escrito a pincel, que no melhor francês, punha à disposição de Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.

Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia três semanas estava ancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe um dote de meio milhão de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido e acompanhar o sedutor à Inglaterra, onde casariam sob a religião protestante.

E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe defronte dos olhos; e— ela sempre meiga, sempre amável, nunca dizia que "não" e também nunca dizia que "sim", justamente como em pequena lhe ensinara a velha D. Clementina.

O Borges, coitado! é que já não podia agüentar com aquele demônio de vida.

Quando não era o teatro, eram as visitas, os jornalistas, as repetidas festas — um jamais acabar de maçadas! é certo que já não pisava no palco, mas em compensação as suas lides de empresário, de caixa e de gerente, absorviam-lhe todos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar contas, contratar empregados, administrar o serviço do teatro, escriturar a receita dos espetáculos — um inferno de preocupações.

(continua...)

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