Por Aluísio Azevedo (1884)
— Diabo! Resmungou Amâncio, sentindo arrepios por todo o corpo. — Desta forma perco a noite inteira, e amanhã estou impossibilitado de ir à academia!...
A idéia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor muito amargo de sacrifício. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a insônia para correr uma vista de olhos pela lição; acendeu a vela, corajosamente, assentou-se à mesinha que havia no quarto e abriu um compêndio. Mas não conseguia prestar atenção à leitura; percorreu distraído duas ou três páginas e ficou a olhar a chama trêmula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril.
Sentiu vontade de beber. — Se não estava enganado — a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador, na varanda.
Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova.
O sangue não lhe queria ficar quieto. A continuar daquele modo, o remédio que tinha era pôr-se ao fresco e vagar pelas ruas, até encontrar sossego.
O conhaque não estava no aparador. Amâncio, contrariado, desceu à chácara, e foi assentar-se a um banco de pedra. — Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou ele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufete no seu próprio quarto.
A lua escondia-se agora entre nuvens; as árvores rumorejavam; tudo parecia concentrado e adormecido.
Debaixo viam-se as janelas dos quatro cômodos do segundo andar, que davam para a chácara. Lá estava o n.° 8, o 9 o 10 e o 11. Começou a pensar nos hóspedes daqueles quartos: o 11 era do tal Correia o médico que só aparecia ali de quando em quando, “para fazer uns trabalhos que os filhos não lhe permitiam em casa da família”; o 10 era do gentleman — Bom maçante! Amâncio lembrou-se de que lhe prometera acompanhá-lo uma qualquer noite ao Passeio Público. — Havia de ir, disseram-lhe que às vezes se encontravam aí bem boas coisas!...
O 9 é que ele não se lembrava a quem pertencia...Ah! era do tal Melinho, “ a pérola”, como o qualificava João Coqueiro constantemente.
E o de Lúcia! da misteriosa Lúcia!
Ela estava ali!...fazendo o quê?...pensando nele talvez...talvez dormindo...talvez até nem dela fossem o bilhetinho amoroso e os dois ramilhetes!...Quem sabia lá!...
E esta dúvida o apoquentava.
— Ora adeus! disse. — A ocasião havia de chegar!...
Veio-lhe, porém uma tentação aguda de subir ao n.° 8.
— Que mal podia vir daí?...O marido com certeza estava dormindo!...Que poderia acontecer?...
Levantou-se resolvido; mas as vidraças do quarto do tal médico, que só aparecia de quando em quando, acabavam de se iluminar.
— Olá!... considerou Amâncio, detendo-se. Ë o n. °11!
Por detrás dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver para dentro, apenas duas sombras difusas projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora diminuindo. Amâncio deixou-se ficar onde estava , mordido já de curiosidade.
Daí a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um sujeito alto, todo de escuro, e mais uma mulher gorda, de enorme chapéu, cujas abas lhe caíam sobre os olhos, ensombrando-lhe o rosto.
Vinha um atrás do outro, porque a escada era estreita. Atravessaram a chácara, falando em voz baixa, e entraram no corredor. Amâncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe.
A porta da rua estava aberta, como de costume; um carro esperava pelos dois lá fora; o cocheiro dormia na boléia. O sujeito do n.° 11 deu a mão à mulher das grandes abas, ajudou-a a entrar na carruagem e, seguida, entrou também. O cocheiro fechou sobre eles a portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o se posto e tocou os animais.
— E que tal?...interrogou Amâncio de si para si, quando os viu partir.
Lembrou-se então do que lhe dissera o velhaco do Coqueiro por ocasião de mostrar-lhe a casa: “Quanto a certas visitas...isso tem paciência... lá fora o que quiseres, mas, daquela porta para dentro...”
— Hipócritas! pluralizou o estudante.
E encaminhou-se para o segundo andar.
* * *
Subiu pela escadinha do fundo, não a do médico, mas pela outra do lado oposto; porque havia duas.
O primeiro andar continuava em completo silêncio; no segundo apenas se ouvia, de espaço a espaço, um tossir seco e agoniado, que vinha naturalmente do n.° 7 onde morava o tal moço doente. O pobre-diabo piorava à falta absoluta de meios.
Amâncio entrou às apalpadelas no corredor que dividia os oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas vidraças da janela e sarapintava o chão de pequeninos pontos brancos.
O n. ° 5, onde residia o Paula Mendes com a mulher, era o único que tinha luz; uma forte claridade rebentava por cima da porta fechada e ia projetar-se na parede do n.°10 que lhe ficava fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem escuro.
Amâncio parou defronte do n.° 8. — Era ali!
Encostou o ouvido à fechadura; nem sinal de vida - Lúcia com certeza dormia profundamente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.