Por José de Alencar (1875)
Seguiu-se um momento de silêncio ou antes de estupor. Aurélia irritava-se contra a invencível mudez de Seixas, e talvez a atribuía a uma cínica insensibilidade moral. Pensava em exacerbar os nobres estímulos de um homem ainda incapaz de reabilitar-se da fragilidade a que fora arrastado, e achava um indivíduo tão embotado já em seu pudor que não se revoltava contra a maior das humilhações.
Aurélia soltou dos lábios um estrídulo, antes do que um sorriso.
- Agora podemos continuar nossa comédia, para divertir-nos. É melhor do que estarmos aqui mudos em face um do outro. Tome a sua posição, meu marido; ajoelhe-se aqui a meus pés, e venha dar-me seu primeiro beijo de amor... Porque o senhor ama-me, não é verdade, e nunca amou outra mulher senão a mim?...
Seixas ergueu-se; a sua voz afinal desprendeu-se dos lábios com calma, porém fremente:
- Não; não a amo.
- Ah!
- É verdade que a amei; mas a senhora acaba de esmagar a seus pés esse amor; aí fica ele para sempre sepultado na abjeção a que o arremessou. Eu só a amaria agora, se a quisesse insultar; pois que maior afronta pode fazer uma senhora, um miserável, do que marcando-a com o estigma de sua paixão. Mas fique tranqüila; ainda quando me dominasse a cólera, que não sinto, há uma vingança que não teria forças para exercer; é essa de amá-la.
Aurélia ergueu-se impetuosamente.
- Então enganei-me? Exclamou a moça com estranho arrebatamento. O senhor amame sinceramente e não se casou comigo por interesse?
Seixas demorou um instante a olhar no semblante da moça, que estava suspensa de seus lábios, para beber-lhe as palavras:
- Não, senhora, não enganou-se, disse afinal com o mesmo tom frio e inflexível. Vendi-me; pertenço-lhe. A senhora teve o mau gosto de comprar um marido aviltado; aqui o tem como o desejou. Podia ter feito de um caráter, talvez gasto pela educação, um homem de bem que se enobrecesse com sua afeição; preferiu um escravo branco; estava em seu direito, pagava com seu dinheiro, e pagava generosamente. Esse escravo aqui o tem; é seu marido, porém nada mais do que seu marido!
O rubor afogueou as faces de Aurélia, ouvindo essa palavra acentuada pelo sarcasmo de Seixas.
- Ajustei-me por cem mil cruzeiros, continuou Fernando; foi pouco, mas o mercado está concluído. Recebi como sinal da compra vinte mil cruzeiros; falta-me arrecadar o resto do preço, que a senhora acaba de pagar-me.
O moço curvou-se para apanhar o cheque. Leu com atenção o algarismo e dobrando lentamente o papel, guardou-o no bolso do rico chambre de gorgorão azul.
- Quer que lhe passe um recibo?... Não; confia na minha palavra. Não é seguro.
Enfim estou pago. O escravo entra em serviço.
Soltando estas palavras com pasmosa volubilidade, que parecia indicar o requinte da impudência, Fernando sentou-se outra vez defronte da mulher.
- Espero suas ordens.
Aurélia, que até esse momento escutara com ansiedade, perscrutando sôfrega no semblante do marido e através de suas palavras um sintoma de indignação, disfarçada por aquele abrasado de vergonha.
- Meu Deus!
A moça tragou o soluço que lhe sublevava o seio, e refugiando-se no outro canto do sofá, como se receasse o contágio do homem a quem se unira pela eternidade, abismou-se na voragem de sua consciência revolta.
Após longo trato, Aurélia como se despertasse de um pesadelo, ergueu os olhos e encontrando de novo o semblante de Seixas que a observava com um sossego de escarninho, teve um enérgico assomo de repulsão, ou antes de asco.
- Minha presença a está incomodando? Porque assim o quer. Não é, senhora? Não tem direito de mandar? Ordene, que eu me retiro.
- Oh! Sim, deixe-me!! Exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.
- Devia examinar o objeto que comprava, para não arrepender-se!
Seixas atravessou a câmara nupcial, desapareceu por essa porta que uma hora antes ele entrara cheio de vida e felicidade, palpitante de júbilo e emoção, e que repassava levando a morte na alma.
Quando Aurélia ouviu o som dos seus passos que afastavam-se pelo corredor, precipitou-se com um arremesso de terror e deu volta à chave. Depois quis fugir, mas arrastou uns passos trôpegos, e caiu sem sentidos sobre o tapete.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.