Por Lima Barreto (1921)
Conheço uns, conheci outros; e não vi entre ambos uma diferença essencial de mentalidade, caráter e coração.
Só se é na citação de textos de leis, acórdãos, etc., nas sentenças; mas isso é da tarimba do ofício e não denota nenhuma superioridade de inteligência, mas simplesmente exigências da profissão.
Na última sessão do júri em que servi, havia um bacharel em direito que era grotesco de imponência, presunção e vaidade, tudo isto aliado à mais crassa ignorância e ao mais idiota desdém pelos companheiros que não tinham título, aí chamado – científico.
Evitava conversa com os companheiros que não fossem “formados” ou chamados por capitão ou major.
Por mim, então, tinha um desdém soberano, com que ele também cobria um contramestre do Arsenal de Guerra.
Certo dia, entramos em sessão, eu, ele e o contramestre.
Cavalcanti, tal era o seu nome, fez faiscar mais o anel de bacharel e logo se indicou para presidir os “trabalhos”.
Depois de feita a acusação pelo promotor, fomos para a sala secreta tomar café e repousar.
Tratava-se de um pobre rapaz português que, sendo caixeiro de um botequim da Cidade Nova, e vendo-se ameaçado por um vagabundo, tirou da gaveta um revólver e despejou sobre este último todas as cinco balas.
Nenhuma atingiu ao agressor e era a segunda vez que vinha ao júri.
Na primeira, fora condenado ao mínimo, creio que a seis ou oito anos; não se conformara e apelara.
Foi a sua desgraça porque encontrou um júri em que o idiota dum bacharel como o Cavalcanti tinha influência.
Já o conhecia de vista, do Tesouro, onde ia receber a aposentadoria de meu pai e ele a do dele, creio que desembargador.
Cavalcanti chegava com o peito estofado, flor na lapela, chapéu de feltro de abas largas, copa quebrada no meio, um insolente charuto no canto da boca e, inevitavelmente, empurrava-me para assinar a folha, quando não, para oferecê-la a algum figurão que lá fosse buscar a sua gorda aposentadoria. Entre estes havia o barão de Pedro Afonso que, apesar de barão e homem de mérito, naquela ocasião era de uma morgue e de uma insolência com os outros humildes colegas seus de folha de pagamento, morgue e insolência difíceis de se admitir em homem de seu valor.
Cavalcantí às vezes vinha acompanhado pela mãe. De braço dado a ela, muito arrogante, teso, ao lado da velha, com o seu rico xale de Tonquim, do seu toucado negro de outras eras, o par entrava no salão baixo da pagadoria com a imponência de quem entrasse numa sala do paço de Sua Majestade o Imperador do Brasil.
Sentava Cavalcanti a velha, segundo todas as regras do cerimonial antigo, no sórdido banco da dependência do erário nacional e tratava de empurrar-me a mim, ou a outro pobre-diabo como eu que não descendia do cavalheiro Guido Cavalcanti, de Florença, que vem no Dante.
Fazendo parte do conselho, ele continuou a tratar-me com o mesmo desdém idiota com que me tratava no Tesouro, sem contudo empurrar-me.
Quando fomos tomar café, logo se armou em mentor dos companheiros, pondo bem em evidência o seu anel de rubi.
Tratamos logo da sentença. Percebi que ele julgava do dever da sua prosápia bacharelesca condenar o réu, levantar até a pena. Percebi também que ele não entendia nada daquilo de quesitos, agravantes, atenuantes e outras coisas elementares próprias do júri e dos jurados.
Não houve em mim nenhuma sombra de capricho para vingar-me do desdém com que ele me tratava; mas fui imediatamente pela absolvição.
Expus o meu parecer. O homem já estava na detenção há quatro anos; não matara de fato, não ferira; o seu procedimento anterior era bom; à vista disso tudo, nada mais justo que mandá-lo para rua, se por “al” não estivesse preso, como o diz o juiz de beca.
Cavalcanti não quis argumentar e disse sentenciosamente:
– A lei é a lei; e o código deve ser cumprido.
Não pude deixar de sorrir e observei:
– Absolvendo-o, nós não deixaremos de cumprir o código.
Não me respondeu diretamente, mas disse estas palavras:
– Sou um profissional e não quero que amanhã os jornais me envolvam no rol dos jurados ignorantes.
Aborreci-me mas mantive o sangue frio e objectei:
– Pouco se me dá a opinião dos jornais, tanto mais que eu vivo nas redações; conheço-os muito bem. Aqui não há jurisconsultos; e se o pensamento que criou esta instituição fosse de faze-la composta de jurisconsultos, não seria isto júri, mas outra coisa qualquer. É o contrario justamente que ele quer. Absolvo o homem.
Não me respondeu e pôs-se num canto cercado de três ou quatro perus de velhas casacas.
O contramestre do arsenal, um bom mulato, simples e modesto, veio logo ter comigo:
– Já conhecia o senhor da Secretaria da Guerra.
Acudi ao cumprimento, depois do que ele me disse:
– Estou com o senhor. Absolvo também o homem.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.