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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Gregório chegou aos quinze anos de idade com muito boa disposição de corpo e menos mau aproveitamento intelectual. Os cuidados imediatos de D. Florentina e os desvelos, não menos valiosos, que de longe lhe enviava a condessa, foram-lhe de grande valimento. Mas até aí nunca recebera ele de quem quer que fosse uma explicação lúcida a respeito dos seus antecedentes, nem a respeito das pessoas a quem devia a sua educação. Ia quase sempre passar os domingos em companhia de D. Florentina de Aguiar; sabia que não era seu filho, mas ignorava completamente que espécie de relações havia entre ela e ele, e quais as razões que a faziam tão solícita a seu respeito.

As coisas neste ponto, caiu gravemente enferma D. Florentina, e Gregório, ao visitá-la, recebeu a notícia de que ia sair do colégio e passar a praticar na Alfândega, como caixeiro de um despachante geral parente daquela senhora.

— Chegaste à idade em que tens de principiar por ti mesmo a ganhar a vida, disse D. Florentina. Eu me sinto ir acabando muito apressadamente, e só desejo ver-te empregado antes que me fechem os olhos; de hoje em diante, meu filho, não deves contar no mundo com mais ninguém além de ti. Já não precisas do auxílio da pessoa que até agora provia a tua subsistência; por conseguinte, meu rapaz, faze por ter juízo e por ser homem. Não queiras nunca barulhentas glórias; não te queiras fazer saliente e notável, antes procura a doce paz de uma obscura felicidade. E isto, só a boa mediocridade nos pode proporcionar de um modo verdadeiramente seguro e constante. É possível que ainda venhas algum dia a conhecer teu pai ou tua mãe; pede-lhes que te abençoe, e tu, perdoa-lhes alguma falta que eles porventura hajam cometido a teu respeito.

Gregório pediu, embalde, ainda mais alguns esclarecimentos da sua procedência, e desde então principiou a sentir uma vaga tristeza, produzida pela falta de alguma coisa que ele não conseguia determinar bem o que fosse. Era um desejar indeciso e duvidoso, do qual não conhecia a origem; uma espécie de saudade, sem motivo e por isso mesmo mais dolorosa. Sentia estranhas nostalgias de um mundo desconhecido, que seu coração sonhava e antevia por entre outras mentiras.

E foi neste melancólico pungir de mágoas indefinidas, que ele assistiu à morte de sua mãe adotiva. Sobreveio-lhe uma enorme crise nervosa, chorou extraordinariamente; chorou com a sofreguidão de quem precisa desabafar tristezas acumuladas no peito há muito tempo, e até chegara a gozar certo prazer voluptuoso com lhe correrem aquelas lágrimas dos olhos. Entretanto alguma coisa lhe dizia de dentro que toda essa dor e todo esse pranto não eram formados só pelo muito amor que ele tivesse a D. Florentina. Ele a estremecera muito, não havia dúvida, mas podia perfeitamente se conformar com a idéia da sua morte. O que o fazia sofrer tanto, o que o punha nervoso e triste daquele modo, era outra coisa, era a falta prematura da sua verdadeira mãe.

Foi com o espírito enfermado por estas apreensões que Gregório, uma tarde, em que estava assentado debaixo dos bambus da Avenida Estréia, viu subir vagarosamente a velha escadaria de pedra rajada que conduzia à casa do Papá Falcounet, uma senhora ainda moça, extremamente pálida e cheia de lânguidas tristezas.

Ia pelo braço de um velho, maior de sessenta anos, que parecia preocupado exclusivamente com ela. O velho desfazia-se em solicitudes e carinhos; a moça sorria às vezes para ele, apenas por condescender.

Era uma mulher de trinta anos talvez; esbelta, não muito magra, fisionomia insinuante; olhos volutuosos, úmidos, de um brilho singular, cabelos negros, brilhantes e volumosos, dentes claros, boca bem talhada, mas ligeiramente constrangida por um desdenhoso gesto de indiferença. Ao vê-la de relance, toda envolvida no seu longo paletó de casimira alvacenta, sem jóias no pescoço e nas orelhas, com o rosto nublado na penumbra do seu largo chapéu de palha, com o seu triste caminhar de convalescente, o seu descair de cabeça, as suas mãos cor-deneve, como que esquecidas e sem movimento, sentia-se a gente atrair para ela por uma plácida simpatia compassiva. A expressão resignada de seus olhos, aliás talhados para os segredos da ternura, o melancólico sorrir dos seus lábios, que entretanto pareciam feitos somente para executar a música ideal dos beijos, o seu ar abatido e fraco, a sua respiração quebrada, a sua voz suplicante e humilde; tudo que respirava dela penetrava os sentidos com a volutuosa impressão que nos produzem os perfumes da igreja, os sons plangentes do órgão, e os místicos arroubos religiosos.

A tarde ia já descaindo no crepúsculo. O sol havia mergulhado na fímbria vulcânica do horizonte, mas toda a natureza ainda palpitava sob a sensação dos seus últimos beijos fecundos e ardentes. As aves recolhiam-se ao mistério dos seus ninhos, e do fundo sombrio dos arvoredos exalava-se o estridular monótono das cigarras, sobressaindo dentre os primeiros rumores da noite como um interminável gemido solto no espaço.

É essa a hora das profundas concentrações, dos êxtases volutuosos. Tudo parece que tem uma saudade a carpir; de cada moita de roseiras, de cada grupo de bambus, partem ternos suspiros e queixumes dolorosos. A natureza como que chora a partida do seu fogoso amante, que desapareceu nas dobras luminosas do ocidente. Tudo é viuvez! tudo é saudade!

(continua...)

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