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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Mas se tenho toda a certeza de que esse esforço será baldado!... Eu bem me conheço, minha mulher!...

— Seja ou não seja baldado, ele é necessário para a minha felicidade e para a segurança do amor que te dedico! Agora, se entendes que não vale a pena...

— Eu não disse semelhante coisa!... Valha-me Deus! Teu amor está acima de tudo, e creio já ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza: eu, isto aqui entre nós, eu nem sei em que consiste o tal esforço de que me falas; não sei os passos que é preciso dar; não sei como a gente se faz célebre ou o que melhor queres que eu seja!

— Não é tão difícil como te parece à primeira vista. — Se o Brasil estivesse em guerra, sentarias praça quanto antes e dentro em pouco tempo poderia alcançar um posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!

— Deus me livro!

— Mas, continuou Filomena — desgraçadamente estamos numa paz absoluta, e, por conseguinte, só nos resta a política.

— A política?...

— Sim, visto que nas artes ou nas ciências já não poderás fazer nada. Agora é escolher uma causa política e caminhar desassombradamente!

— Uma causa?!

— Sim, uma idéia, um princípio patriótico, qualquer coisa que esteja articulada aos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua idéia, não tens mais que defende-la; então escreverás, escreverás sem cessar; publicarás tudo que te vier à cabeça a respeito de tua causa; darás por paus e por pedras; falarás de tudo e de todos, até que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador te chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, só não obterás o que não quiseres. Entendes tu?

Borges apertou os beiços. E, sacudindo a cabeça:

— É difícil!

— Que difícil o que! retrucou a mulher. — Difícil era conquistar o meu coração e a minha confiança, e conquistaste-os! Não queiras parar em meio do caminho; conquista também o meu entusiasmo e a minha admiração. Faze-te grande! Faze-te célebre! coloca-te ao meu lado! Sobe à minha altura! acompanhame no vôo!

— Veremos, veremos... prometeu o marido vagamente. — Hei de fazer a diligência!

Se fosse coisa que estivesse em suas mãos, a mulher nem precisava pôr tanto na carta! Mas que diabo! Aquela história de descobrir uma causa para defender; o fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos; isso é que lhe fazia confusão e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava disposto a empregar a diligência. — Já agora, seria o que Deus quisesse!...

E nessa disposição acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.

CAPÍTULO XVIII

CELEBRIDADES

Filomena não se enganara quanto à previsão do entusiasmo que havia de causar no Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha aí a famosa cancionista, tão apreciada de Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instantânea.

E desde então até a sua chegada foi ela a ordem do dia; não se falava noutra coisa. Esperavam-se contando os minutos; um sussurro uníssono de elogios evolva-se da opinião pública, sem que ninguém pudesse explicar a causa de semelhante alacridade.

Afinal, chegou.

Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a vê-la. O cais Pharoux parecia diminuir sob a multidão que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos, por aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres. Nas ruas faziam-se comentários a respeito da baronesa de Itassu; os jornais pregavam na parede notícias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas as proporções; inventavam-se biografias.

Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era uma grande velhaca. Este jurava que a vira já muito por baixo, num hotel; aquele dizia que ela fora sempre riquíssima, e que só trabalhava em público por amor à arte. Aqui afiançavam havê-la visto, em tal época dançar uma habanera em casa de tal figurão; logo, ali, negavam: — Que não! que essa Filomena era outra, falecida havia já coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro, não tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos bailes, por tão luxuosos e originais, ainda se conservavam na memória de toda a gente!

E as discussões reproduziam-se, cada qual mais disparatada.

Entretanto, no meio desse burburinho que se fazia no cais, dois homens, depois de se abalroarem, soltaram exclamações de reconhecimento.

— Olá! Você também por aqui, Sr. Barroso?... — É verdade. Como vai o amigo Guterres?

Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contrário, dizia-se feliz. Graças a Deus continuava às mil maravilhas com a sua cara mulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupação, eram o seu enlevo!

— O senhor é quem goza esta vida! considerou o outro.

(continua...)

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