Por Aluísio Azevedo (1884)
Principiou então para eles um viver perfeitamente de boêmios. Sem trates, nem dinheiro, nem futuro, nem relações constituídas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora, que andava a senhora, a percorrer as casa de pensão: sempre sobressaltados, sempre perseguidos pelos credores que iam deixando atrás de si.
Em cada lugar se demoravam o maior tempo que podiam, dois, três, quando muito quatro meses; até que lhe suspendiam o crédito e dos dois levantavam novamente o vôo, deixando a dívida em aberto e o dono da casa lívido, colérico, sem saber ao menos que direção tomavam os vagabundos.
Nesse peregrinar, Lúcia teve uma contrariedade mais profunda — achou-se grávida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe remédios para fazer abortar; nada, entretanto, produziu efeito. O demônio da criança parecia disputar o seu quinhão de vida com uma persistência desesperadora.
Nasceu afinal, no quarto de um português na Fábrica de Chitas, entre os cuidados mercenários do locandeiro e o obséquio de alguns amigos, que Lúcia fora conquistando com as simpatias de seu talento musical,.
O diabinho pouco durou, felizmente. Desapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na rua, quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da Fábrica de Chitas para uma casa de pensão na Rua do Catete.
Cora encarregou-se de atirá-lo ao mar. Ninguém viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas pulverizavam no ar um chuvisco miúdo, de fevereiro.
O menino fora muito franzino e muito mole; saíra ao pai, o Pereira. Durante o seu pobre mês de vida só abriu os olhos uma vez, ao expirar.
A casa de pensão era a Sexta que Lúcia percorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito tranqüilo de sua vida, feliz; ela inquieta, sôfrega pelo tal sujeito, que com tanto empenho procurava.
Quando constou a Lúcia que Amâncio era rico e atoleimado, uma nova esperança radiou-lhe no coração.
— É agora!... disse.
E preparou-se para o combate.
* * *
Foi por isso que o estudante recebeu , no dia seguinte ao baile do Melo, aquele ramilhete, tão falsamente atribuído a Hortênsia., e porque, uma semana depois, outro ramo, bastante parecido com o primeiro, se achava às onze horas da noite no do rapaz, sobre a cômoda.
— Olé!, disse ele.
E, satisfeito com a intriga, principiou a fazer conjeturas.
— De quem viriam aquelas flores!...Ah! exclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas.
E leu:
“Não saibam nunca espíritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem te envia essas pobres flores. Não o procures descobrir; deixa que o meu segredo viceje e cresça na tepidez do mistério, ‘semelhança das plantas melancólicas que reverdecem nas sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!”
— Seria de Amélia, seria de Lúcia, ou seria de Hortênsia? De Nini é que não poderia ser, porque a desgraçada, com certeza, não sabia escrever coisas daquela ordem!
Não dormiu essa noite; as palavras do ramilhete voejavam-lhe dentro da cabeça, como um bando de mariposas.
— De quem seria?...De Amélia não, não era de supor; pois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele tentava se abrir com ela em questões de amor; de Hortênsia também não, não era natural que fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou qualquer outra pessoa de casa, teria visto o portador. Além disso, a mulher do Campos não seria capaz daquilo; estava caidinha — é certo! Mas não levaria a leviandade ao ponto de lhe escrever e enviar semelhante declaração. O que, porém, não sofria dúvida é que os ramos tinham a mesma procedência.
E Lúcia?...É verdade! E Lúcia? Com certeza não era de outra! Sim! Tudo estava a dizer que o tal bilhetinho saíra de suas mãos!...aquelas frases poéticas, aquele mistério, aquela franqueza de confessar o seu amor em duas palavras...Não tinha que ver! Era da mulher do Pereira!
E um palpite brutal, inadiável, substituiu logo a calma simpatia que lhe inspirara Lúcia.
Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes, desejou-a com urgência; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo instante, na silenciosa escuridão daquele quarto.
E voltava-se de um para outro lado da cama, sem conseguir pegar no sono.
Esperar até o dia seguinte o momento de estar com ela afigurava-se-lhe um sacrifício enorme, quase invencível. Como podia lá descansar, dormir, com semelhante preocupação a remexer-se-lhe por dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas?
Definitivamente não conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela, e pôs-se a olhar para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as conjeturas sobre o como seria a situação, no caso que Lúcia aparecesse ali,
naquele instante ”Que sucederia?...Que fariam eles?...” Duas horas bateram na sala de jantar.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.