Por Camilo Castelo Branco (1882)
O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cinturão com dinheiro em ouro; mas ninguém ousou desabotoar a farda do morto defendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinelas intanguidas de frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro, o Zeferino desceu à igreja próxima, a Margaride, avisar o pároco que tinha morrido na estrada um fidalgo do exército do Sr. D. Miguel. O padre, estremunhado e liberal, respondeu que não era coveiro; que se dirigisse ao regedor. A autoridade, sem as delongas dos processos legais, depositou o cinturão com as peças na mão do administrador, e mandou abrir uma cova no adro da igreja, onde o baldearam com um responso económico. Passavam jornaleiros para as roças. Punham as enxadas no chão e encostavam às mãos calosas as caras contemplativas. O regedor contava que lhe acharam mais de um conto de réis em ouro.
– Toma! – disse um dos jornaleiros – um conto de réis! – E inclinando-se à orelha de outro jornaleiro: – Ó Tónio, se temos ido mais cedo para o monte... e topámos o morto...
– Que pechincha!...
Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um idílio em prosa.
O Zeferino acompanhou a guerrilha até que mataram o general em Trás-os- Montes os soldados do Vinhais; depois passou com alguns chefes realistas para a Junta do Porto; e, acabada a luta, foi para casa e entregou a espada ao pai, que o recebeu com estas carícias:
– Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te não fiasses no bêbedo de Quadros; que não saísses a campo sem lá ver o morgado de Barrimau. Agora, pedaçode- asno, torna a começar com as paredes, e tem cuidado que te não deitem a unha. Lembra-te que prendeste o regedor de Vilalva, e quiseste agarrar o brasileiro de Prazins que tem agora demais a mais o irmão regedor. Olha se te lembras... A mãe do José Dias anda por aí a berrar que a Marta e mais tu lhe matas-te o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!
– Se alguém embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta! – protestava o pedreiro, cortando com o braço e
punho fechado punhadas aéreas. – Se me matarem... até lho agradeço! – E com desalento: – Sou o maior infeliz e desgraçado que cobre a rosa do Sol! Veja você: há três anos que não tenho uma migalha de estifação, c'um raio de diabos! Isto acaba mal, digo-lho eu! Você verá, sor pai, que ou me matam ou eu acabo numa forca pr'ámor daquela rapariga que foi o Diabo que me apareceu, e não me passa daqui! – e apertava o gorgomilo nodoso entre dois dedos como quem apanha uma pulga.
Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas reiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabeças dos distritos ramificaram-se destacamentos a fim de coadjuvarem a autoridade. Simeão de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalicão e incumbido de dirigir a diligência militar que devia dar um assalto a Lamelas, a casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns miguelistas se tinham recolhido, contra as condições estipuladas no protocolo de Gramido. O regedor compreendeu o perigo da empresa; pediu que o demitissem; mas a autoridade impôs-lhe com azedume o cumprimento dos seus deveres, e negou-lhe a demissão.
Quando o Zeferino, sucumbido à carga dos reveses, indiferente à vida e à morte, se chamava infeliz e desgraçado, o destino implacável preparava-lhe novo desastre. Ele, ao romper da manhã, depois de uma insónia febril, sonhava que era sargento-mor das Lamelas e assistia à formatura do regimento de milícias de Barcelos debaixo do solar de D. Maria Pinheiro. Na janela gótica do velho edifício da época de D. Afonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar do seu exército vencedor, em que havia muitas músicas marciais, de fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou; e o abade de Calvos, dentro de um carroção e vestido de pontifical, borrifava o povo com hissopadas de água benta, cantando o Bendito. As tropas estendiam-se até Barcelinhos, e pelo Cávado abaixo velejavam muitos barquinhos embandeirados de galhardetes com as bandas musicais de Santiago de Antas de Ruivães tocando a Cana-verde e Água leva o regadinho. Num desses bergantins com pavilhão de colchas vermelhas vinha sentada a irmã do padre Roque, mestre de latim, com os seus óculos, a fazer meia; e ao lado dela, vestida de cetim branco e borzeguins vermelhos dourados, com os cabelos soltos, vestida como os anjos da procissão da Senhora da Burrinha em Braga, a Marta de Prazins. Ele estava na ponte, absorto na visão da noiva que chegava pelo Cávado para se casar quando um vizinho lhe bateu com o cabo da sachola na janela três pancadas. Saltou da cama atordoado.
Que fugisse pelo quintal que já estavam soldados a entrar nas Lamelas com o regedor.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.