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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Que a força deste manata

Você já sabe qual é.

Pelino, vendo que a Rita tinha ficado impressionada com a resposta, esquentouse e, com todo o ímpeto, desafiou:

Eu conheço a sua força

Sei a força que você tem

Mas eu cá não tenho medo

Nem de você, nem de ninguém.

Epitácio, apesar de pequenino, cresceu e gritou, fora do tom do fado:

Olhe o que você está falando

Caboclo! você não me atenta!

Nasci eu em Caxangá

E tenho cabelo na venta.

Pelino, com a ousadia inesperada de Epitácio, perdeu um pouco da tintura das barbas, e, quase esbravejando, retrucou:

Nascesse aqui ou ali

Ou mesmo no ôco do pau

Quando estou com a razão

Sou pior que bicho mau.

Mas Pessoa, que é hoje presidente, esqueceu-se da sua célebre “agravante da inundação”, e quis fazer uma desgraça verbal, destemperando na quadra. abaixo:

Você vai ver com quantos paus

Fabrica-se uma canoa

Então para o seu governo

Tome no alto da coroa.

O célebre promotor da inundação, atual presidente desta bodega, agrediu o seu contendor; mas nesse meio tempo, a cheirosa criatura, Rita da Anunciação, a cabocla, interveio, enquanto uma autoridade policial aparecia.

Inteirou-se do caso, soube dos versos e disse simplesmente:

– Mas não são de nenhum deles. Conheço o autor... Rita da Anunciação, que tinha sido objeto de tão falso pugilato, não se pôde conter diante de semelhante desfaçatez e exclamou com desdém:

– Ora bolas!

Dom Quixote, Rio, 15-10-1919.

CASOS DO JÚRI

Trabalhos de outra ordem e, mesmo, muita vagabundagem não me têm permitido coordenar e escrever as minhas impressões do júri.

Servi em mais de uma sessão; e longe de me aborrecer ficava satisfeito quando era sorteado.

Nunca vi nesse fato motivo para “paulificação” e tédio. Ao contrário: o espetáculo é variado e animado; e quem gosta de ver aspectos curiosos da vida, apreciar confrontos, encontra no júri material abundante. É muito diferente da repartição.

Tudo ali é interessante. O promotor tonitruante, o juiz amolado e o solerte escrivão de óculos não são só as figuras que merecem apreço.

Há ainda o advogado com o infalível Mittermaier, Garofalo, e entre autos de estudos criminais, citando-os a todo propósito, às vezes mesmo puras banalidades, que podiam ser ditas com a sua responsabilidade precisa, sem nenhum perigo.

Há o réu que, em curtas ocasiões, é um pobre-diabo de homem, levado ao crime e à geena da prisão devido às suas condições de vida e ao choque com a má gente que o cercava.

Há os jurados que são mais homogêneos do que pode parecer à primeira vista. Como é sabido, são, sem grande exceção, funcionários públicos e mesmo os “formados” que lá aparecem também o são. A sua mentalidade é muito igual. Desta ou daquela repartição, todos eles têm a mesma estreiteza de vista; todos eles têm uma medíocre instrução; todos eles têm a mesma força de caráter, a mesma independência de julgamento; todos eles têm a mesma capacidade de sentimento.

É vê-los conversar um dia, é vê-los conversar todos os outros. Falam sempre sobre argumento de equiparação de vencimentos, sobre preterições e promoções, sobre os casos políticos do dia, sobre a honestidade das mulheres dos amigos ou sobre a honorabilidade dos mandarins da política e da administração.

Não se vê que discutam sobre qualquer questão mais alta de arte, de literatura, de ciência, de filosofia; o assunto de suas palestras são as banalidades da vida comum ou as pilhérias dos jornais ilustrados até daqueles que o Santo Tosta deu cabo quando foi diretor dos Correios.

Não há censurá-los por isso, porque o Estado tem a virtude de imbecilizar todos os seus empregados, tirando-lhes toda a iniciativa intelectual, castrando-os mentalmente, com a minuciosidade de seus regulamentos, avisos, portarias, etc., etc. A natureza apresenta exceções a quase todas as leis científicas e paradoxos a aberrar de todas as previsões; mas o Estado não se inspira na natureza e julga poder prever todos os casos com uma chusma de leis, decretos, regulamentos, avisos, portarias, memorandos, etc.

Seja um juiz ou seja um amanuense, o empregado do Estado que entra para o seu serviço, sabendo alguma coisa, lendo o seu romance e a sua revista, tendo alguma inteligência, ao fim de dez anos está completamente burro, só lê casos de polícia, não suporta um artigo mais longo, nem mesmo uma crônica, e não define nada segundo a sua inteligência, ficando abarbado se não encontra uma “disposição” que regule o “caso”.

Dadas certas diferenças superficiais, a mentalidade dos jurados, o seu julgamento sobre a vida e a sociedade, as suas idéias sobre o destino da humanidade não são lá muito diferentes dos que sobre tudo isso pensa a maioria dos juizes togados.

(continua...)

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