Por Aluísio Azevedo (1882)
O velho havia já referido os pormenores do seu encontro na chácara, e, como de costume, exagerara um pouco as circunstâncias do fato. Principiou-se a cochichar sobre o recém-chegado e ninguém parecia disposto a perdoar a esquisitice de Gregório, recolhendo à casa um vagabundo, desprezível por todos os motivos.
Todavia Gregório ordenou que dessem de comer a Pedro Ruivo e voltou à sala para a palestra.
Nessa ocasião acabava de chegar o padre Almeida. Era um homem forte, sangüíneo, com uma ruidosa voz de baixo profundo. Não gostava de hipocrisias, contava, no estrondo de formidáveis gargalhadas, as escapulas que fazia, e não tinha pelos maçons, pelos positivistas e pelos ateus a menor sombra de prevenção ou de ódio.
À noite, nas palestras em casa do Papá Falconnet, o demônio do padre não ficava calado um só instante, sem jamais esgotar o seu repertório de anedotas e pilhérias. Miravam estas quase sempre o jovial estalajadeiro ou a sua não menos jovial consorte, que as ouvia tranqüilamente, com um pequeno riso de mofa, saracoteando as suas vigorosas ilhargas na preocupação dos arranjos da casa.
Além de Gregório foi o padre Almeida o único hóspede que atentara mais fixamente para Pedro Ruivo. Enquanto este na cozinha devorava o que lhe deram para cear, o padre o observava a certa distância.
Terminada a refeição, o vagabundo procurou o seu benfeitor para lhe agradecer o obséquio e pedir licença para se ir embora.
— Este homem cometeu hoje um crime, disse o padre em tom seco, com a sua voz de estrondo.
Pedro Ruivo estremeceu e olhou energicamente para ele. A fisionomia do gatuno havia mudado de expressão.
— Juro-o! sustentou o padre.
— E o que o leva a avançar semelhante coisa?! perguntou o Ruivo, erguendo dramaticamente a cabeça e cruzando os braços.
— Sua própria cara, respondeu o interrogado, sem lhe tirar os olhos de cima.
— Foi então para isto que me conduziram aqui?! Antes mo tivessem dito, porque não aceitaria a esmola.
— Este homem roubou! acrescentou o padre. E o fruto do seu roubo está escondido na gruta!
— Ah! bradou o gatuno, saltando para a porta, enquanto os circunstantes repetiam estupefatos as últimas palavras do padre.
Não sabiam que este, logo ao entrar em casa, pedira ao Papá Falconnet informações sobre os fatos concernentes ao homem suspeito que acabava de ser introduzido no hotel, e por eles tirara a lúcida conseqüência que tanto assombrava Pedro Ruivo.
O embusteiro, ao ver-se denunciado, fugiu sem dar tempo a que o agarrassem, e precipitou-se pelos fundos da casa em direção à gruta.
— Prendam-no! gritou o padre, avançando. Mas foram baldados todos os esforços, porque Pedro Ruivo ganhara a chácara e logo desaparecera nas sombras da floresta que principiava ali mesmo a pequena distância.
Gregório recolheu-se ao quarto, envergonhado de ter protegido um intrujão daquela ordem. Ele ali no hotel sempre fora muito estimado de todos, se bem que para alguns passasse, debaixo do ponto de vista social, por um simples visionário. Gregório, como todo o rapaz inteligente, na idade que o nosso herói contava nessa ocasião, tinha as suas convicções republicanas e entusiasmava-se loucamente por tudo aquilo que dissesse respeito à liberdade. Não podia pactuar com a idéia do servilismo e da escravidão; contudo sabia governar perfeitamente o seu temperamento e passava por moço sossegado e comedido. Morava havia dois anos na Avenida e, durante esse tempo, ninguém tivera mal que dizer do seu procedimento. Nunca o viram exceder-se nas libações do jantar, nem o viram apoquentar com sorrisos intencionados e com olhares pretensiosos as raras mulheres que por lá apareciam; e até, se dermos crédito ao próprio dono da casa, Gregório levava o seu puritanismo ao ponto de nunca haver (por acaso, bem entendido) dado algum encontrão na criada, que aliás era uma moçoila das ilhas, corada como um pêssego maduro e rija como um pêssego verde.
E cremos que as coisas continuariam eternamente nesse pé, se o mesmo acaso, que nunca quis fazer abalroar com a rapariga cor-de-pêssego, não se lembrasse de arrastar até à sossegada Avenida Estrela, um formoso lírio cor-deneve, doce e melancólico como um suspiro de amor.
Mas não precipitemos os acontecimentos; ainda nos falta dizer o que foi feito do nosso herói, depois que o deixamos perfeitamente aboletado no colégio do barão de Tetoepheus.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.