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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era mais que tempo de regressarem! Ele estava farto de nunca ser aquilo que era, de nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito!... Para que ir mais longe?... Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham já experimentado todas as comoções; haviam percorrido já toda a escala da vida humana — riram-se com os felizes, choraram com os desgraçados — sofreram e gozaram; tiveram o que há de bom e o que há de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!

A baronesa, porém, sorria desdenhosamente às palavras do marido:

— Ela voltaria à pátria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser precedida de réclames e anúncios retumbantes! Queria entrar no Brasil com ruído, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a população, desencaixilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola, que tinha i suprema honra de lhe haver dado o berço!

— Não iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e vaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos; nunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha; não seria a indígena que tantos corações fez pulsar, mas em compensação havia de ser a "Exma. Sra. Baronesa de Itassu". Enorme cauda de veludo! jóias deslumbrantes! luvas até o ombro!

E só se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na melhor sociedade; ou então, lá uma vez por outra para quebrar o seu tédio de mulher célebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos pés, mostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse de mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado num programa de espetáculo, esse nome que os parisienses decoraram, seria o bastante para encabrestar a população da corte e traze-la de rastros aos degraus de seu trono. E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquetá!...

— Mas, santo Deus! estaria nas suas mãos porventura sumir-se por uma vez, desaparecer, fugir?!... Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento em vida!

Do que havia experimentado até ali, do que havia sentido, do que sofrera, do que gozara — nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer coisa! No seu coração ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!

— Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as mãos à cabeça. — Valha-me Jesus Cristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda não é desta vez que sossego?

— E para que sossegar?! interrompeu Filomena. — Que significa o repouso? Pensarás que eu hoje seria capaz de resignar-me à morbidez estúpida de uma existência sem idéias nem aspirações? Pensarás que eu consentirei em abandonarmos a vida pública, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas conquistado um nome digno de mim e digno de teu mérito?!...

— Heim?! Como é lá isto?!... exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas fazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um "grande homem"?!

— Certamente! certamente! Ao contrário não valeria a pena gastarmos tanto tempo e tanto esforço em preparar o teu espírito!

— Ora essa! De sorte que até agora... eu nada mais fiz que preparar-me?...

— Para conquistar uma posição eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperança que te dediquei a minha vida e o meu amor!...

— Mas Filoquinha de minh’alma! eu não disponho de aptidões para isso!... Bem vês que até hoje tenho feito por ti tudo que está nas minhas mãos... Como, porém, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa dose de talento?!...

— Isso é o que pensas, e a modéstia com que te julgas é mais uma prova de tua competência! O verdadeiro mérito é sempre assim!

— Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como não tenho o menor talento! Acredita que é esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que não serei jamais um "grande homem"!

— Se sentisses o contrário, é que nunca o poderias ser!

— Ora, que desgraça a minha!... considerou o Borges de si para si. — Ora, que eu não consiga entrar um momento nos seus eixos, sem ter de contrariar minha mulher! De que havia agora de se lembrar — querer que eu seja um "grande homem". Eu, que não sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade, o escândalo, o ruído! eu, que já me impacientava de a ver tão conhecida, e suspirava todos os dias por sair desta inferneira!

— Não! disse ele em voz alta. Não! Tem paciência! Isso é impossível! Pede o que quiseres, mas não exijas de mim uma coisa de que eu não disponho!

— Entretanto, assim é preciso, respondeu Filomena, a não ser que estejas resolvido a destruir num segundo a única esperança que me resta!...

— Mas a questão é que a gente não é "grande homem" quando quer!... Ora essa! replicou o Borges.

— E muito menos quando não quer! volveu a outra. — Não exijo de ti mais do que um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!

— De boa vontade?!

— Sim, de resolução. Contento-me com isso!

(continua...)

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