Por Aluísio Azevedo (1884)
Ela “a mísera senhora”, vinha, entretanto, de gente honesta e bem conceituada, se bem que muito pouco escrupulosa em pontos de educação. deramlhe professores de francês, de música, de desenho; entregaram-lhe enfiadas de romances banais e livros de maus versos; e, todavia, não lhe deram moral, nem trataram de lhe formar o caráter. A desgraçada percorreu bailes desde pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez anos de idade; teve a primeira paixão aos doze; aos quinze julgava-se desiludida e sonhava com o túmulo; aos vinte, como é natural, sucumbiu ao palavreado de um primo em segundo grau e bacharel pelo Pedro II.
O primo, assim que a viu pejada, azulou para o Rio Grande do Sul, onde tinha a família, e nunca mais lhe deu sinal de si.
Foi então que surgiu em Lúcia a idéias de utilizar-se do Pereira. Entre as pessoas que freqüentavam a casa de seus pais, era ele o único aproveitável para casamento. Nesse tempo vivia o dorminhoco às sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada, e de quem mais tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. Lúcia meteu as mãos à obra, mas, por pouco que não desanimou; Pereira não dava de si coisa alguma, parecia não compreender as provocações. Era quase impossível tirar algum partido daquele animalejo! Ela, porém, não se quis dar como vencida, e lutou.
Lutou, empregando os meios mais ardilosos, para injetar nos nervos daquele sonâmbulo uma faísca magnética de amor. Trabalho inútil! Afinal, vendo que o pedaço de asno era incapaz de qualquer ação ou reação, tomou ela a parte agressiva; e a coisa resolveu-se no mesmo instante.
Depois, como não havia tempo a perder e porque já conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro dele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um escândalo dos diabos, se o “sedutor” não tratasse, quanto antes, de tomar uma resolução muito séria a respeito de casamento.
Pereira não tratou de tomar coisa alguma desta vida e nem se abalou com a presença de Lúcia. Aceitou-a, como aceitaria outra qualquer imposição, porque ele era dos tais que, às maçadas da cura, preferem os incômodos da moléstia. Só no fim de quatro dias de lua-de-mel, como Lúcia insistisse nas suas idéias matrimoniais, o pachorrento declarou, com toda a calma, que lhe não podia fazer a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde os dezoito anos, o haviam casado com uma velha, um fúria, que o Pereira não sabia, nem queria saber, por onde andava.
Lúcia perdeu os sentidos; esteve à morte. Os pais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar na cidade de Campos. Foi o tio do Pereira, o tal das riquezas aferrolhadas, que a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto que o sobrinho. Deu –lhe casa, comida, roupa e dinheiro.
Uma irmã dele, senhora de inveterado amor a crianças, solteirona, de quarenta a cinqüenta anos e que, com o olho no testamento, desejava a todo o transe ser agradável ao mano, encarregou-se do filho do bacharel.
Correram quatro anos. Lúcia não viu mais a família, apenas visitava o filho, de quando em quando.
O Pereira continuava às sopas do tio, indiferentemente, como se tudo aquilo não lhe dissesse respeito. Acordava, quer dizer. Levantava-se às dez horas, tomava no quarto o seu banho morno, depois um copo de leite fervido, almoçava às onze, fazia as digestão estendido no sofá da sala; às duas horas dormia, depois passeava pela chácara à espera do jantar, cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que ele tinha no quarto.
À noite, quando conseguia levantar-se, jogava o gamão com o tio. Cochilavam ambos, até que se servia o chá , e cada um se retirava para a cama.
— A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles.
— E o dia para se descansar, resmungava o outro espreguiçando-se.
E recolhiam-se.
O velho morreu de repente; uma congestão que lhe sobreveio ao encontrar Lúcia no fundo do jardim às voltas com um estudante da vizinhança.
— Bom! Dissera Lúcia, alijada afinal daquela obrigação que já lhe ia pesando demais. E fariscou o testamento. Mas o velhaco apenas deixava algumas dívidas à praça e dois terrenos hipotecados ao Banco Predial. A coisa única que ela aproveitou foi Cora, mulatinha de criação, cuja matrícula e cuja escritura de compra estavam em seu nome.
Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que pudesse dar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que não houvera a menor alteração na sua vida. Continuava a dormir tranqüilamente, como se as sopas do tio ainda o fossem procurar às horas da refeição.
Lúcia compreendeu que não devia contar com ele, e tratou em pessoa em cômodo para os dois, num hotel de arrabalde. Sentia-se resoluta e forte; era ela agora o cabeça do casal; tinha belos projetos de trabalho: daria lições de piano, de desenho e de francês, até que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira.
O homem, porém, não aparecia, como não apareciam os discípulos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.