Por Camilo Castelo Branco (1862)
Mariana, decorridos dias, foi a Viseu recolher a herança paterna Em proporção com o seu nascimento, bem dotada a deixara o laborioso ferrador. Afora os campos, cujo rendimento bastaria para a sustentação dela, Mariana levantou a laje conhecida da lareira e achou os quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as regalias de sua decrepitude inerte. Vendeu Mariana as terras, e deixou a casa a sua tia, que nascera nela, e onde seu pai casara.
Liquidada a herança, tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que vivia, fronteira à Relação, na Rua de S. Bento.
— Por que vendeu as suas terras, Mariana? — perguntou o preso.
— Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.
— Não faz?... Para onde há de ir, Mariana, indo eu degredado? Fica no Porto?
— Não, senhor, não fico — balbuciou ela como admirada desta pergunta, à qual o seu coração julgava ter respondido de muito.
— Pois não?!
— Vou para o degredo, se vossa senhoria me quiser na sua companhia.
Fingindo-se surpreendido, Simão seria ridículo aos seus próprios olhos.
— Esperava essa resposta, Mariana, e sabia que não me dava outra. Mas sabe o que é o degredo, minha amiga?
— Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra mais quente que a nossa; mas também há lá pão, e vive-se...
— E morre-se abrasado ao sol doentio daquele céu morre-se de saudades da pátria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das galés, que têm um condenado na conta de fera.
— Não há de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso à mulher dum preso, que cumpriu dez anos de sentença na Índia, e viveu muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma tenda; e, se não fossem as saudades, diz ela que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida que por cá. Eu, se for por vontade do Senhor Simão, vou pôr uma lojinha também. Verá como eu amanho a vida. Afeita ao calor estou eu; vossa senhoria não está; mas não há de ter precisão, se Deus quiser, de andar ao tempo.
— E suponha, Mariana, que eu morro apenas chegar ao degredo?
— Não falemos nisso, senhor Simão...
— Falemos, minha amiga, porque eu hei de sentir à hora da morte, a pesarme na alma, a responsabilidade do seu destino... Seu eu morrer?
— Se o senhor morrer, eu saberei morrer também.
— Ninguém morre quando quer, Mariana...
— Oh! se morre!... E vive também quando quer... Não mo disse já a senhora D. Teresa?
— Que lhe disse ela?
— Que estava a passar quando vossa senhoria chegou ao Porto, e que a sua chegada lhe dera vida. Pois há muita gente assim, senhor Simão... E mais a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os trabalhos; e, se fosse preciso meter uma lanceta no braço e deixar correr o sangue até morrer, faziao como quem o diz.
— Ouça-me, Mariana que espera de mim?
— Que hei de eu esperar!... Por que me diz isso o senhor Simão?
— Os sacrifícios que Mariana tem feito e quer fazer por mim só podiam ter uma paga, embora nos não faça esperando recompensa. Abre-me o seu coração, Mariana?
— Que quer que eu lhe diga?
— Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
— Conheço. E que tem isso?
— Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?
— E dai? Quem lhe diz menos disso?!
— Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
— Eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!
— Nada me pediu, Mariana; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz o peso da obrigação.
Mariana não respondeu; chorou.
— E por que chora? — tornou Simão carinhosamente.
— Isso é ingratidão... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.
— Não me compreendeu... Sou infeliz por não poder fazê-la minha mulher. Eu queria que Mariana pudesse dizer:
— "Sacrifiquei-me por meu marido; no dia em que o vi ferido em casa de meu pai, velei as noites a seu lado; quando a desgraça o encerrou entre ferros, deilhe o pão que nem seus ricos pais lhe davam; quando o vi sentenciado à forca, endoideci; quando a luz da minha razão me tornou num raio de compaixão divina, corri ao segundo cárcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a pátria daquele pobre coração, trabalhei à luz do sol homicida para ele se resguardar do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam..."
O espírito de Mariana não podia altear-se à expressão do preso; mas o coração adivinhava-lhe as idéias. E a pobre moça sorria e chorava a um tempo. Simão continuou:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.