Por Camilo Castelo Branco (1882)
Pinho Leal inventara o ataque dos eabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitável; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo militarmente pitoresco os veracíssimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...A besta do escocês continuava na sua pânria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua . Eu, vendo que de um momento para outro, podíamos ser surpreendidos e trucidadas pelos Cabrais, aproveitando a circunsttância de estar e tendo na casa da câmara um de cem homens, comandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Saí com eles por um beco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castelo. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O em vista da nossa prévia combinação, mandou tocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da Câmara. Eu e os meus cinco homens viemos sorrateiramente metermo-nos na vila. Fui a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada .
E dali, Pinho Leal foi à casa do Arco, a fim de salvar aqueles homens que se ensopavam em bebidas de guerra numa pacificação de idiotas, e retardar alguns dias a benemérita morte do general escocês assalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.
O Cerveira Lobo, quando soube que a força marchava à uma hora daquela noite frigidíssima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma botija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que punha a tiracolo nas marchas nocturnas. Encheu-o com a ajuda do pedreiro. O tenente-coronel, num grande desequilíbrio, não acertava a despejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira tão borracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavalo. O Cerveira afirmava que se sentia com os seus trinta anos; que andara a trote largo do seu cavalo treze léguas e não estava cansado. O Zeferino perguntou-lhe se o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra mastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um asno, e que ele estava resolvido e mais o Vitorino a matálo como traidor ao Sr. D. Miguel I.
Moveu-se o exército em direitura à Lixa. O Cerveira ia no grupo do quartelgeneral. MacDonell, de vez em quando, regougava monossílabos em espanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se às vezes um pouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O Vitorino notava-lhe que ele bebia de mais – que o calor da genebra não se espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabeça – que era um perigo. O Cerveira dizia que estava afeito; mas queixava-se de dores nas fontes e zunidos nas orelhas; que não se podia lamber com sono, e que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:
– Este ladrão deste inglês meto-lhe a espada até aos copos! Palavra de honra que o mato amanhã!
O Vitorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas atribuiu à embriaguez o embaraço na fala. Entrou a queixar-se o Cerveira de que estava tonto da cabeça, que se queria apear, porque não podia agarraras rédeas; e chamava com ansiedade o Zeferino que vinha muito à retaguarda. O quartel-mestre-general chamou uni ajudante-de-ordens, e pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava o tronco ao longo do pescoço do cavalo que estranhava o peso e o sacudia, sentindo-se livre da pressão do freio.
O apopléctico ia resvalar, quando os dois oficiais o ampararam nos braços, numa síncope. Um deles acende uni palito fosfórico no lume do charuto, e disse que o tenentecoronel tinha o rosto inchado e muito vermelho. Chamavam-no, sacudiam-no; não dava sinal de vida; nem um ronquido estertoroso. Inclinaram-no sobre um combro de mato molhado; não lhe acharam pulso; a boca entortara-se, e os olhos muito abertos com umas estrias sanguíneas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alcoólica.
A respeito deste desastroso remate do ébrio ilustre, escreve Pinho Leal: Nesta retirada pelas duas ou três horas da noite, morreu em marcha com unia apoplexia fulminante o F... Coitado! quando me lembra isto ainda tenho cá meus remorsos de consciência. Quem sabe se seria eu a causa da morte daquele pobre diabo? Consolame porém a certeza de que, mesmo que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas vidas de gente moça (e a minha que era o principal para mim); e o morto já poucos anos podia durar, pois estava no calçado velho .
Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite à beira do cadáver do fidalgo de Quadros. À claridade fusca da manhã invernosa viramlhe o semblante que metia pavor. Quiseram cerrarlhe as pálpebras que resistiam à distensão, coriáceas, num retesamento orgástico. A maxila inferior parecia deslocada e torta, repuxando a comissura direita dos lábios num esgar de escárnio ou de angústia dilacerante. A cor do rosto era agora de unia amarelidão de barro, molhado pelo orvalho que se filtrara através do lenço com que lho cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflexíveis, e uma das mãos afincada como garra nas correias da pasta.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.