Por Lima Barreto (1921)
Essa coisa de sociologia foi sempre mais ou menos vaga, por isso julgo muito justo que haja uma sociologia católica, outra muçulmana, outra budista, outra bramânica e assim por diante.
A do senhor Bezerra é católica e simplista, apesar das citações de autores mais ou menos belgas; a minha é mais ou menos fetichista com citações de poetas indianistas.
Uma vale bem a outra e é por isso que eu aprecio o senhor Andrade Bezerra, quando deita as suas homílias socialmente sacristães, pelas colunas do Correio da Manhã.
Há dias, porém, ele ficou furiosamente profeta e imprecou.
Disse dos seus colegas o que Mafoma não disse do toucinho; que não trabalhavam; que não faziam nada, etc., etc.
Veio o senhor Cambuim e disse que o senhor Bezerra também não fazia nada.
O que se pode concluir, de tudo isso é que a Câmara trabalha, à vista de que os deputados se acusam mutuamente de vadiagem.
Não tenho muita admiração pelo trabalho, sobretudo quando se trata de trabalho de deputados, mas acho inconveniente esse debate entre deputados.
Que pensará o povo do seu custosíssimo aparelho de representação? Que ele é inútil – não acham?
É uma conclusão perfeitamente revolucionária que os sociólogos da variedade católica devem evitar que o vulgo faça do papel eficiente dos seus representantes.
Cuidado!
Careta, Rio, 4-10-1919.
NO “MAFUÁ” DOS PADRES
O meu amigo doutor João Ribeiro ainda não me pôde explicar o que quer dizer “mafuá”.
Apesar disso, eu, pela boca do povo, sei que, mais ou menos, tal termo exprime uma barafunda de homens e mulheres de todas as condições.
Não quero contribuir para o dicionário de brasileirismos da Academia; mas o que aprendo ensino.
Ouvi esse termo de “mafuá” no Engenho de Dentro, para designar umas barraquinhas que os padres tinham lá feitas.
Era, como lá diziam, o “mafuá” dos padres.
Eles fazem um leilão de prendas, por intermédio de moças mais ou menos decotadas.
Aprecio o aspecto e, domingo último, com o meu amigo Modestino Kanto , escultor e laureado, fomos até lá.
Havia, como já disse, um leilão de prendas e numa das barracas estava em leilão um carneiro.
Surgiram logo como disputantes o Oscar Saião, soldado de linha de tiro, e o João do Norte, alferes de policia.
Ambos queriam dar o carneiro à crioula Candinha que não se importava com nenhum deles, mas tinha um grande interesse pelo carneiro.
Saião grita:
– Dou mil e quinhentos.
Logo João do Norte berra:
– Ofereço mil e setecentos.
A disputa ia assim, quando aparece o Raul Soares, reservista naval, e dá um lance maior:
– Levo por dois mil-réis.
Todos ficaram atônitos inclusive a Candinha, que logo se embeiçou pelo reservista, vendo a sua liberalidade.
Entretanto, estava ela enganada, porquanto, dentro em pouco, chegava o voluntário de manobras Kalogheras e cobria o preço do reservista naval Raul Soares:
– O carneiro me fica por dois mil e quinhentos.
Foi o diabo por aí, porquanto Candinha ficou logo apaixonada pelo voluntário de manobras.
O fato é que se engalfinharam e foi preciso a presença do almirante Epitácio, sendo os feridos pensados anteriormente pelo doutor Ângelo Tavares, clínico muito conhecido no Méier.
O delegado não prendeu Candinha; mas examinou o carneiro. Era falso e só dizia – “mé” – porque tinha uma gaita no bucho.
Careta, Rio, 11-10-1919.
UM “DESAFIO” HISTÓRICO
Na Paraíba do Norte, quando era do norte, pois acabaram com a do sul, houve um “desafio” que se tornou notável, porquanto nele tomaram parte personagens que hoje são célebres. O caso se passou entre o senhor Epitácio Pessoa, atual presidente da república, e o senhor Pelino Guedes, poeta extraordinário das Trovas do Sertão e diretor-geral da Secretaria da Justiça, presentemente aposentado.
Todos os dois tinham amor por uma cabocla cheirosa que nem a flor do manacá; mas ao que parece ela não se importava com nenhum deles e tinha uma grande admiração por um “saveirista” da vizinhança.
Epitácio começou:
Você que carrega o saco
Deste moço decidido
Diga-me no fim da festa
Quem fica de mal partido
Pelino, à vista disso, quis coçar o bigode e a cabeleira, mas quando ia fazer tal coisa, lembrou-se da Negrita e escondeu o gesto, pensando na resposta que foi esta:
Quem fica de mal partido?
Eu vou já lhe responder
Que no fim deste governo
Eu sei o que vou fazer.
Epitácio, então, ficou meio engasgado e, poucos minutos depois, respondeu ao Pelino das barbas de tinta:
Faço o que me der na telha
Pois seja lá como for
No fim deste governo
Não serás governador.
Epitácio, olhando para a Rita da Anunciação, tomou-se de entusiasmo e vociferou os seguintes versos:
Não serás governador
Só mesmo se não quiser.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.