Por Aluísio Azevedo (1882)
— Pois venha descansar cá para dentro, aconselhou o velho, aproximandose mais, disfarçadamente.
E quando o Ruivo ia abrir carreira por entre o mato, já o francês ganhara de um salto a distância que os separava e o empolgava pelos braços. Não foi preciso sustê-lo durante muito tempo, porque apareceu logo o hortelão, que estava perto, e pouco depois os hóspedes a cujos ouvidos chegaram os gritos do hoteleiro.
Mas, na ocasião em que conduziam Pedro Ruivo para a casa, deu este um arranco das mãos que nessa ocasião o seguravam, e ganhou o mato, pelo lado das montanhas.
— Não o deixemos fugir! gritou um dos rapazes que o perseguiam. Anglada! Augusto! Afonso! Por aqui! Cerquem o gatuno!
E os rapazes precipitaram-se no alcanço de Pedro Ruivo.
Se o leitor, em vez de ler simplesmente o que vai escrito, ouvisse também o metal da voz que gritou, ficaria sabendo que ali estava Gregório. Pedro Ruivo continuou a subir de carreira o monte. Mas o cofre dificultava-lhe a fuga; as pernas principiavam-lhe a tremer, o cansaço tomava-lhe a respiração, e ele, já sem forças, ia render-se, quando descobriu a gruta.
As pessoas que conhecem a Avenida Estrela sabem a que gruta nos referimos, e, se o leitor a não conhece, ficará fazendo dela idéia completa pela descrição que mais adiante lhe diremos.
Pedro Ruivo ocultou o cofre ali, em um canto sombrio. Era tempo, porque caiu logo prostrado. A idéia, porém, de que a sua presença nesse lugar podia conduzir a atenção para o objeto que ele acabava de esconder, obrigou-o a afastarse, com dificuldade, até chegar a um ponto, onde se assentou à espera dos perseguidores.
Gregório, que ia à frente dos outros rapazes, ao ver a calma do perseguido e o ar triste de miséria e fraqueza espalhado por todo ele, não pôde conter uma desagradável impressão de vergonha.
— Pois era para perseguir aquele desgraçado, que se fazia tanto alarme?!...
— Não se fie muito!... sentenciou o Anglada, a procurar as suas lunetas que lhe haviam escapado no furor da carreira.
O Augusto e o Afonso tomaram a deliberação de encarar o episódio pelo lado ridículo e abriram a rir ao mesmo tempo.
Entretanto Gregório se aproximara do gatuno e o examinava com muito interesse. Aquela figura triste e repugnante enchia-o de estranha compaixão. Sem saber porque, sentia-se atraído para aquele destroço de homem, que lhe parecia representar ali tudo o que há de doloroso e resignado na miséria humana.
— Com efeito! considerava ele; quanto não haverá de extraordinário na vida deste homem!... que obscuras circunstâncias não o teriam arremessado a tal extremo?... que não lhe teria sucedido para chegar a todo este aviltamento?... Será simplesmente uni gatuno?... será um grande libertino ou será uma pobre vítima de mil infortúnios?!...
E Gregório, ou fosse por impulso do seu temperamento, ou fosse por qualquer outro motivo, sentiu-se sumamente interessado pelo miserável a quem há pouco perseguia; tanto que, depois do seu longo exame, lhe perguntou amigavelmente o que viera fazer ali.
Pedro Ruivo sacudiu os ombros.
— Em que se ocupa o senhor? Onde mora? interrogou Gregório.
— Eu não me ocupo e não moro, respondeu o vagabundo.
— E então como vive? insistiu o rapaz.
— Não vivo, respondeu o outro, com um acento de profunda tristeza.
— E por que não procura trabalhar?... Por que se não ocupa em qualquer serviço?...
— Porque me falta a coragem para tanto... Eu sou um desgraçado. Estou completamente perdido!
— Entretanto não me parece um homem inteiramente sem habilitações...
— Ah! isso são modos de ver... Todo homem tem habilitações, desde que a tal se disponha. Eu podia dar um bom saltimbanco, mas o maldito reumatismo não me deixa senhor de minhas pernas...
— Por que então não se arranja aí em qualquer coisa? Hoje no Rio de Janeiro é muito fácil ganhar a vida...
— Espero tirar um prêmio na loteria...
— Não tem parentes?
— Tenho.
— Ah!
— Mas estão mortos...
— Pergunto-lhe se tem algum vivo.
— Também tenho disso. Tenho um filho...
— Ah! Tem um filho? E o que é feito dele?
— Não sei...
— E o que mais tem além desse filho?
— Uma fome devoradora. Há trinta e tantas horas que não como...
— Pois venha para cá. Vou dar-lhe o que comer.
— Obrigado, disse Pedro Ruivo, levantando-se, disposto a acompanhar Gregório.
E daí a pouco entravam os dois no hotel, seguidos dos outros rapazes, que já haviam chegado.
O tipo miserável de Pedro Ruivo causou nos hóspedes uma terrível impressão; desafinava desastradamente do aspecto sossegado e burguesmente farto da casa do Papá Falconnet.
Vieram logo todos os hóspedes para a sala em que estava Pedro Ruivo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.