Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas o Borges afastou-se da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.
— Este animal não me deixa pôr o pé em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo contrariado, depois de cortejar a brasileira.
Borges acompanhou-o até fora da porta e, ao voltar para junto da mulher, disse-lhe esta:
— Conheces?
— Quem? Este tipo? Não!
— Oh! o D. Luís, homem!
— Que D. Luís?
— O D. Luís, de Portugal. — Ora essa!
— Pois é ele
— Queira Deus que estas brincadeiras não te venham a dar na cabeça!... observou o botocudo.
— Deixa-te de receios, meu selvagem — e vem daí, que já deu o segundo sinal para principiar o espetáculo!
CAPÍTULO XVII
SUPREMA EXIGÊNCIA
Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dançarina requestada com as suas intransigências de mulher honesta e com os eternos desvarios de seu temperamento romântico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento de sua fantasia, transformando-o e disfarçando-o sob as singularidades de seus caprichos, dando-lhe atrações que ele por si não tinha, e sem as quais ela não o poderia suportar.
As ternuras do Borges só lhe alcançavam o coração depois de filtradas por uma rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta é para o sopro — o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.
Queria todos os beijos do esposo, sim! contanto que não viessem naturalmente, sem obstáculos a vencer ou conveniências a guardar. Era preciso que houvesse necessidade de escondê-los de alguém, de obtê-los com sacrifício de alguma coisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfianças, promover comentários.
Não consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que não fosse ela. Exigia que o marido só deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terrível, quando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistificação tornava-se indispensável para a ventura de Filomena.
O botocudo intrigava muita gente: — Seria crível que uma mulher, tão formosa e tão lúcida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?... O monstro seria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples réclame?...
E os comentários reproduziam-se entre os freqüentadores do Cirque d'hiver à proporção que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada e menos condescendente.
Em alguns passeios de distração que fez aos arredores de Paris, quase sempre escoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que não queria acompanhada de selvagem, tinha de segui-la a certa distância, usando de todos os expedientes para não ser descoberto e para que não suspeitassem de leve que ele ia à pista da brasileira.
Estava nisto empenhada a sua honra, isto é, a honra do marido de Filomena.
Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasiões alguns momentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas; tinha de saltar muros, às vezes servir-se da chaminé, introduzir-se-lhe no quarto, por alta noite, a tripetrepe, quando não fosse pressentido por nenhum dos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em pé, à espera do primeiro escândalo.
E tudo isso o torturava abertamente. — Maldita fosse a hora em que ele se fez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.
Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris invadindo as redações das folhas, os salões, os ateliers, os boulevards, os cafés, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes costureiras e o quinto andar dos magros estudantes.
Atribuíram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe canções e trolets, publicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.
E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricatura, em fotografias, em cromos, em caixinhas de fósforos, em bustos de gesso, em nervoso grevíns de terre culte. E por toda a parte a pareceram chapéus, fazendas, penteados à Filomena Borges. Seu nome serviu de título a casas de negócios; suas toillettes serviram de modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas. traduzidas em todas as línguas.
Quando ela terminou a longa excursão que fez pelo norte da Europa, possuía em dinheiro e em jóias mais que o necessário para viver tranqüilamente o resto de sua vida.
Por outro lado, o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o incômodo papel de botocudo e retomara o seu titulo de barão de Itassu, rogava-lhe com instância que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com ele a um cantinho feliz da pátria — a Paquetá, por exemplo, a Paquetá de que ele tinha as mais vivas saudades!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.