Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo em cima: Que deixasse lá o pequeno com o mestre!... Mais tarde ele havia de agradecer aquelas palmatoadas!
Assim não sucedeu. Amâncio alimentou sempre contra o Pires o mesmo ódio e a mesma repugnância. Verdade é que também fora sempre tido e havido pelo pior dos meninos da aula, pelo mais atrevido e insubordinado. Adquiriu tal fama com o seguinte fato :
Havia na escola um rapazito, implicante e levado dos diabos, que se assentava ao lado dele e com quem vivia sempre de turra.
Um dia pegaram-se mais seriamente .Amâncio teria então oito anos. Estava a coisa ainda em palavras, quando entrou o professor, e os dois contendores tomaram à pressa os seus competentes lugares.
Fez-se respeito. Todos os meninos começaram a estudar em voz alta, com afetação. Mas, de repente, ouviu-se o estalo de uma bofetada.
Houve rumor. O Pires levantou-se, tocou uma campainha, que usava para esses casos, e sindicou do fato.
Amâncio foi o único acusado.
— Sr. Vasconcelos! — gritou o mestre — porque espancou o senhor aquele menino?
Amâncio respondera humildemente que o menino insultara sua mãe.
— É mentira! protestou o novo acusado.
Amâncio repetiu o insulto que recebera. Toda a escola rebentou em gargalhadas.
— Cale-se, atrevido!berrou o professor encolerizado, a tocar a campainha.— Mariola! Dizer tal coisa em pleno recinto de aula!
E, puxando a pura força o delinqüente para junto de si, ferrou-lhe meias dúzia de palmatoadas. Amâncio, logo que se viu livre, fez um gesto de raiva.
— Ah! ele é isso?! Exclamou o professor. — Tens gênio, tratante?! Ora espera! isso tira-se!
E voltando-se para o rapazito que levou a bofetada, entregou-lhe a férula e disse-lhe que aplicasse outras tantas palmatoadas em Amâncio.
Este declarou fortemente que se não submetia ao castigo. O professor quis submetê-lo à força; Amâncio não abriu as mãos. Os dedos pareciam colados contra a palma.
O professor, então, desesperado com semelhante contrariedade, muito nervoso, deixou escapar a mesma frase que pouco antes provocara tudo aquilo.
Amâncio recuou dois passos e soltou uma nova bofetada, mas agora na cara do próprio mestre. Em seguida deitou a fugir, correndo.
Um “Oh “ formidável encheu a sala. O Pires, rubro de cólera, ordenou que prendessem o atrevido. A aula ergueu-se em peso, com grande desordem. Caíram bancos e derramaram-se tinteiros. Todos os meninos abraçaram sem hesitar a causa do mestre, e Amâncio foi agarrado no corredor quando ia alcançar a rua.
Mas, quatro pontapés puseram em fugida os dois primeiros rapazes que lhe lançaram os dedos. Dois outros acudiram logo e o seguraram de novo, depois vieram mais três, mais oito, vinte, até que todos os quarenta ou cinqüenta estudantes o levaram à presença do Pires, alegres, vitoriosos, risonhos, como se houvessem alcançado uma glória.
Amâncio sofreu novo castigo ;serviu de escárnio aos seus condiscípulos e, quando chegou à casa, o pai, informado do que sucedera na escola, deu-lhe ainda uma boa sova e obrigou-o a pedir perdão, de joelhos, ao professor e ao menino da bofetada
Desde esse instante, todo o sentimento de justiça e de honra que Amâncio possuía, transformou-se em ódio sistemático pelos seus semelhantes. Ficou fazendo um triste juízo dos homens.
— Pois se até seu próprio pai, diretamente ofendido na questão, abraçara a causa do mais forte!....
Só Ângela, sua adorada, sua santa mãe, à noite, ao beijá-lo antes de dormir, depois de lhe perguntar se ficara muito magoado com o castigo, segredara-lhe entre lágrimas que “ele fizera muito bem ...”
Como aquele, outros fatos se deram na meninice de Amâncio. Todas as vezes que lhe aparecia um ímpeto de coragem, sempre que lhe assistia um assomo de dignidade, sempre que pretendia repelir uma afronta ,castigar um insulto, o pai ou o professor caía-lhe em cima, abafando-lhe os impulsos pundonorosos.
Ficou medroso e descarado.
No fim de algum tempo já podiam na escola, insultar a mãe quantas vezes quisessem, que ele não se abalaria; podiam lançar-lhe em rosto as ofensas que entendessem porque ele se conservaria impassível. Temia as conseqüências de desafronta. “ Estava domesticado”, segundo a frase do Pires.
Todavia, esses pequenos episódios da infância, tão insignificantes na aparência, decretaram a direção que devia tomar o caráter de Amâncio. Desde logo habituou-se a fazer uma falsa idéia dos seus semelhantes ;julgou os homens por seu pai, seu professor e seus condiscípulos. — E abominou-os. Principiou a aborrecê-los secretamente, por uma fatalidade do ressentimento; principiou a desconfiar de todos, a prevenir-se contra tudo, a disfarçar, a fingir que era o que exigiam brutalmente que ele fosse.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.