Por José de Alencar (1878)
De uma dessas elevações dominava-se a casa vizinha, especialmente a asa do edifício, que ficava fronteira, a duas braças apenas de distância.
Foi daí que Amália, aproveitando uma ocasião em que as janelas estavam abertas, viu o quarto de dormir e o toucador da noiva, ambos preparados com luxo e primor.
No toucador, sentada junto a uma mesa de charão, Julieta procurava numa caixinha de jóias uns botões para os seus punhos de cambraia. O mando entrou. Em pé, por detrás da cadeira, colheu nas mãos o rosto da moça e cobriu-o de beijos.
A travessa que os espiava disparou a rir. Julieta corou e quis afastar-se; porém, Hermano a reteve e beijou-a de novo tranqüilamente, como para afrontar a malícia da menina com a castidade de sua carícia.
Pouco tempo depois desta cena, o Sr. Veiga mudou-se para o Andaraí, por causa da perda de sua sogra, e alugou a casa de São Clemente, para onde D. Felícia não quis voltar depois do golpe que ali sofrera.
A existência dos dois noivos continuou sem alteração; sua felicidade tornou-se com o tempo mais serena e por isso mesmo mais intensa.
Afinal apareceu uma ligeira nuvem naquele céu aberto. Estavam casados havia mais de três anos, e não tinham filho. Começaram a sentir essa falta; era o primeiro desejo não satisfeito.
Engolfados no misticismo do amor, tão grato às imaginações vivas, eles consolavam-se com uma teoria psicológica um tanto abstrata, mas original e encantadora.
Hermano dissera uma vez à mulher:
— Um filho é uma porção de nós que se destaca para formar outro eu. Nós, Julieta, nos queremos tão exclusivamente, e nos possuímos com tanta ânsia, que nenhum quer perder do outro a menor parcela, ainda mesmo reproduzir o nosso ser.
A mulher aplaudia esta explicação, que ela primeiro balbuciara sem poder exprimi-la; e o egoísmo cheio de enlevos desse amor inexaurível substituía para o feliz casal o outro penhor que a sorte lhes negara.
Todo esse encanto, a asa negra do infortúnio o apagou em um momento. Hermano perdeu a mulher; e a perdeu justamente quando sua união ia ser abençoada com um filho.
Um aborto levou Julieta. Suas últimas palavras ao marido foram estas que ela proferiu antes de perder o conhecimento:
— Minha alma não podia separar-se da tua, Hermano.
Desde esse momento o marido caiu em um letargo profundo, que o conservou alheio ao que se passava. Esse estado que se assemelhava à idiotia durou por muito tempo.
O Dr. Teixeira, amigo de infância de Hermano, partindo para a Europa a fim de praticar nos hospitais de Paris, levou consigo o infeliz viúvo, na esperança de que a viagem o arrancasse àquela estupefação em que o deixara a perda da mulher.
Antes de seis meses Hermano voltou da Europa com Abreu que o acompanhara; e foi morar na casa de São Clemente, onde tornou-se o homem que era, quando o encontramos cinco anos mais tarde.
Dias depois de sua chegada deu-se um incidente que não escapou à curiosidade dos ociosos da vizinhança. Pararam no portão duas carroças conduzindo caixotes de tamanho descomunal. O que, porém, mais intrigou os espíritos foi a circunstância de arrombar-se uma parede para introduzir-se os volumes no interior da casa.
Em cada bairro há um ou mais parlatórios, que são uns moinhos onde se tritura a matéria-prima
para o fabrico da opinião pública. Outrora era especialidade das boticas; hoje serve uma loja qualquer. Para aí, para esses pontos, afluem todos os mexericos que os escravos levam às tabernas, e todos os boatos e murmurações que os noveleiros se incumbem de propagar.
Muito se falou dos tais enormes caixões. Na opinião de alguns tinham eles desembarcado na Copacabana e entrado por contrabando na cidade. Outros, admitindo o contrabando, afirmavam que passara pela própria alfândega. Finalmente, choviam as suposições acerca do arrombamento da parede e da carga misteriosa que se ocultara até dos criados da casa, com exceção do velho Abreu.
O Sr. Veiga voltou a ocupar sua antiga casa. Amália teve muitas ocasiões de ver na alameda da chácara contígua passar o vulto, ainda elegante, mas grave de Hermano.
Não lhe causava, porém, o aspecto daquele homem a menor impressão A moça, se guardara as recordações da menina, não as tinha presentes ao espírito. Olhando a casa outrora tão brilhante e admirada por ela, revendo o feliz noivo agora solitário e abatido, nem sequer notava a diferença dos primeiros tempos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.