Por Martins Pena (1845)
PAULINA, à parte – Maldita suçurana! (Alto:) Sim senhora, e a rogos de meu marido é que aqui estou.
FABIANA – Ah, foram a rogos seus? O que lhe rogou ele?
PAULINA – Que era tempo de se acabarem essas desavenças em que andamos...
FABIANA – Mais que tempo...
PAULINA – E eu dei-lhe a minha palavra que faria todo o possível para de hoje em diante vivermos em paz... e que principiaria por pedir-lhe perdão, como faço, dos agravos que de mim tem...
FABIANA – Quisera Deus que assim tivesse sido desde princípio! E acredite, menina, que prezo muito a paz doméstica, e que minha maior satisfação é viver bem com vocês todos.
PAULINA – De hoje em diante espero que assim será. Não levantarei a voz nesta casa sem vosso consentimento. Não darei uma ordem sem vossa permissão... Enfim, serei uma filha obediente e submissa.
FABIANA – Só assim poderemos viver juntos. Dá cá um abraço. (Abraça-a.) És uma boa rapariga... Tens um bocadinho de gênio; mas quem não o tem?
PAULINA – Hei de moderá-lo...
FABIANA – Olha, minha filha, e não tornes a culpa a mim. É impossível haver em uma casa mais de uma senhora. Havendo, é tudo uma confusão...
PAULINA – Tem razão. E quando acontece haver duas, toca à mais velha o governar.
FABIANA – Assim é.
PAULINA – A mais velha tem sempre mais experiência...
FABIANA – Que dúvida!
PAULINA – A mais velha sabe o que convém...
FABIANA – Decerto.
PAULINA – A mais velha conhece melhor as necessidades...
FABIANA, à parte – A mais velha!...
PAULINA, com intenção – A mais velha deve ter mais juízo...
FABIANA – A mais velha, a mais velha... Que modo de falar é esse?
PAULINA, o mesmo – Digo que a mais velha...
FABIANA, desbaratando – Desavergonhada! A mim, velha!...
PAULINA, com escárnio – Pois então?
FABIANA, desesperada – Salta daqui! Salta!
PAULINA – Não quero, não recebo ordens de ninguém.
FABIANA – Ai, ai, que estalo! Assim insultar-me, este belisco!
PAULINA – Esta coruja!
FABIANA, no maior desespero – Sai, sai do pé de mim, que minhas mãos já comem!
PAULINA – Não faço caso...
FABIANA – Atrevida, malcriada! Desarranjada! Peste! Mirrada!
Estupor! Linguaruda! Insolente! Desavergonhada!
PAULINA, ao mesmo tempo – Velha, tartaruga, coruja, arca de Noé!
Antigualha! Múmia! Centopéia! Pergaminho! Velhusca, velha, velha! (Fabiana e Paulina acabam gritando ao mesmo tempo, chegando-se uma para a outra; finalmente agarram-se. Nisto acode Sabino, em mangas de camisa, e com o hábito na mão.)
CENA X
As ditas, SABINO, OLAIA e EDUARDO. SABINO entra, EDUARDO e OLAIA o seguem.
SABINO, vendo-as pegadas – Que diabo é isto? (Puxa pela mulher.)
OLAIA, ao mesmo tempo – Minha mãe! (Puxando-a.)
FABIANA, ao mesmo tempo – Deixa-me! Desavergonhada!
PAULINA, ao mesmo tempo – Larga-me! Velha! Velha! (Sabino, não podendo tirar a mulher, lança-lhe o hábito pela cabeça e a vai puxando à força até a porta do quarto; e depois de a empurrar para dentro, fecha a porta a chave. Fabiana quer seguir Paulina.)
OLAIA, retendo a mãe – Minha mãe! Minha mãe!
EDUARDO, puxando Olaia pelo braço – Deixa-as lá brigar. Vem dar-me o hábito.
OLAIA – Minha mãe!
EDUARDO – Vem dar-me o hábito! (Arranca Olaia com violência de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.)
FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair – É um inferno! É um inferno!
SABINO, seguindo-a – Minha mãe! (Fabiana segue para dentro.)
NICOLAU, entrando – O que é isto?
FABIANA, sem atender, seguindo – É um inferno! É um inferno!
NICOLAU, seguindo-a – Senhora! (Vão-se.)
CENA XI
SABINO e depois PAULINA.
SABINO – Isto assim não pode ser! Não me serve; já não posso com minha mulher!
PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda – Onde está esta velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra-se na porta que ele fecha.) Deixa estar, que temos também que conversar... Pensam que hão de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo... Mas à força... Ah, será bonito quem o conseguir!
OLAIA entra chorando – Vou contar a minha mãe!
PAULINA – Psiu! Venha cá; também temos contas que justar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:) Fale quando se lhe fala, não seja malcriada!
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026