Por Martins Pena (1848)
JORGE – Os diabos que as carreguem, corujas do diabo! Assim não vai longe; desanda tudo em muita pancadaria. Ora cebolório! Que culpa tenho eu que o boticário se demorasse em fazer o sinapismo? É bem feito, Sr. Jorge, é bem feito! Quem o mandou ser tolo? Agora agüente... (Gritos dentro.) Grita, grita, canalha, até que arrebentem pelas ilhargas! Triste sorte... Que sogra, que mulher! Ah, diabos! Maldita seja a hora em que eu te dei a minha mão; antes te tivesse dado o pé, e um couce que arrebentasse a ti, a tua mãe e a toda a tua geração passada e por passar. É preciso eu tomar uma resolução. A mana Luísa tem razão; isto é fraqueza. Vou ensinar aquelas víboras! (Diz as últimas palavras caminhando com resolução para a porta; aí aparece Eufrásia e ele recua.)
CENA X
JORGE e EUFRÁSIA.
EUFRÁSIA – Quem é víbora? (Eufrásia caminha para ele, que vai recuando.)
JORGE – Não falo contigo... (Recua.)
EUFRÁSIA, seguindo-o – Quem é víbora?
JORGE, recuando sempre, e encosta-se no bastidor da esquerda – Já disse que não falo contigo!
EUFRÁSIA, junto dele – Então quem é? Sou eu? Fala!
JORGE, querendo mostrar-se forte – Eufrásia!...
EUFRÁSIA – Qual Eufrásia! Sou um raio que te parta!...
JORGE – Retira-te! Olha que te perco o respeito!
EUFRÁSIA, com desprezo – Pedaço de asno!
JORGE – Pedaço de asno? Olha que te... (Faz menção de dar uma bofetada.)
EUFRÁSIA volta para trás, gritando – Minha mãe, minha mãe!
JORGE, seguindo-a – Cala-te, demônio!
EUFRÁSIA, junto à porta – Venha cá!
CENA XI MARIANA e os mesmos.
MARIANA, entrando com um pano de sinapismo na mão – O que é? O que é?
JORGE, recuando – Agora sim!
EUFRÁSIA – Sô Jorge está-me maltratando!
MARIANA – Grandissíssimo sacripante!
JORGE – Sacripante?
EUFRÁSIA – Deu-me uma bofetada!
MARIANA – Uma bofetada na minha filha?
JORGE atravessa por diante de Mariana e chega-se, rancoroso, para Eufrásia – Dei-te uma bofetada, hem?
MARIANA, puxando-o pelo braço – Que atrevimento é esse, grandissíssimo patife?
JORGE, desesperado – Hoje aqui há morte!
EUFRÁSIA – Morte! Queres-me matar?
MARIANA – Ameaças, grandissíssimo traste?
JORGE, para Mariana – Grandissíssima tartaruga!
MARIANA – Tartaruga! A mim?
EUFRÁSIA, puxando-lhe pelo braço – Insultas a minha mãe?
JORGE, para Eufrásia – Grandissíssima lampreia!
EUFRÁSIA – Que afronta! Ai, ai, que morro... (Vai cair sentada em uma cadeira e finge-se desmaiada.)
JORGE – Morre, arrebenta, que te leve a breca! (Quer sair; Mariana o retém pela opa.)
MARIANA – Tu matas minha filha, patifão, mas eu hei de arrancar-te os olhos da cara...
JORGE – Largue a opa!
MARIANA – ... encher essa cara de bofetões!
JORGE – Largue a opa!
MARIANA – Pensas que minha filha não tem mãe?
JORGE – Largue a opa!
MARIANA – Pensas que eu hei de aturar a ti, e a lambisgóia da tua irmã?
JORGE, com raiva – Senhora!...
MARIANA – Queres-me matar também, mariola?
JORGE, cerrando os dentes de raiva e metendo a cara diante da de Mariana – Senhora!... Diabo!...
MARIANA – Ah! (Dá-lhe com o pano de sinapismo na cara. Jorge dá um grito de dor, leva as mãos à cara e sai gritando.)
JORGE – Estou cego! Água, água!... (Sai pelo fundo. Mariana desfeicha a rir às gargalhadas, e o mesmo faz Eufrásia, que se levanta da cadeira. Conservam-se a rir
por alguns instantes, sem poderem falar. Luísa aparece à porta.)
EUFRÁSIA – Que boa lembrança! Ah, ah!
LUÍSA, à parte – O que será?
MARIANA – Que bela receita para maridos desavergonhados! Ah, ah!
EUFRÁSIA – Já não posso rir-me... Ah, ah!
MARIANA – Que cara fez ele! (Vendo Luísa:) O que queres?
LUÍSA, tímida – Eu...
MARIANA – Bisbilhoteira! Vai buscar minha mantilha e o leque de tua cunhada! (Luísa sai.)
EUFRÁSIA – Já sei o remédio daqui por diante.
MARIANA – Sinapismo nele.
EUFRÁSIA – Mas não vá ele ficar cego.
MARIANA – Melhor para ti! (Entra Luísa com uma mantilha na mão e um leque, que entrega a Eufrásia.) Dá cá; não podias trazê-la sem machucar? Desazada! (Põe a mantilha sobre a cabeça.) Vamos, que vai ficando tarde. Iremos primeiro a S. Francisco, que está aqui pertinho. (Para Luísa:) E tu, fica tomando conta na casa, já que não tens préstimo para nada... Pague o que come; não sou burra de ninguém. Vamos, menina.
CENA XII
LUÍSA e depois TIBÚRCIO.
LUÍSA, só – Não tenho préstimo... Sempre insultos! Sou a criada de todos nesta casa. Vou pedir ao mano que me meta no Convento da Ajuda.
TIBÚRCIO, dentro – Esmola para missas das almas.
LUÍSA – Quem é? (Tibúrcio aparece à porta, vestido de irmão das almas.)
TIBÚRCIO – Esmola para missas das almas.
LUÍSA, sem o reconhecer – Deus o favoreça!
TIBÚRCIO – Amém. (Adianta-se.)
LUÍSA – O senhor o que quer?
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.